Solar Fox (Atari 2600)

A Atari anda chateada com alguns desenvolvedores atuais. A companhia tem removido das lojas de aplicativos qualquer jogo que tenha a menor semelhança com seus títulos antigos. A popularidade do iPhone e Android como plataforma de games tem chamado a atenção da empresa que criou a indústria dos videogames. Assim como a música pop mostrou-se ser um movimento de estilos cíclicos, os jogos eletrônicos também têm demonstrado esta característica. Talvez, exatamente agora, estejamos justamente vicenciando a completude do seu primeiro ciclo.

Afinal, o que jogávamos no início dos anos 80? Qual era a mecânica predominante? Se você pensou nos assim chamados “jogos casuais”, estamos em pleno acordo. Outro dia saiu na loja de aplicativos da Apple um jogo intitulado Vector Tanks. Sim, Battlezone… “reimaginado” para os smartphones branquelos. Pois é amigos, quem diria: o Atari Flashback é muito mais do que o nome daquele console retrô sucesso de vendas nos EUA…

E ainda há muito terreno para peregrinação, especialmente no Atari 2600. Com seu hardware inspirador para engenheiros e programadores da época, não há como negar a genialidade eterna de certos títulos. Sem mencionar os Pitfalls e H.E.R.O.s da vida, temos ainda em sua biblioteca centenas de jogos de mecânica cativante, viciante e rápidos de compreender: a originalidade, para uns tão difícil de ser encontrada na indústria dos jogos, pode ser vista de camarote por aqueles que continuam jogando este console até os dias do hoje; até o final dos tempos…

Solar Fox pode vir a ser um bom exemplo. Um port relativamente fiel ao original de arcade da Midway, é um dos cartuchos desconhecidos que tem muito a oferecer no terreno da jogatina rápida, gratificante e — como estamos falando de retrogaming e não de jogos de smartphone — desafiadora.

Alguma coisa relacionada com o nosso planeta necessitando obter células de energia fora do nosso sistema solar por conta dos “séculos de desperdício” dos humanos e… ah, ora, onde é que eu atiro?

Em Solar Fox, o jogador controla uma espaçonave com movimentos limitados a uma grade não-visível, devendo comer quadradinhos (as “células solares”) em 20 fases diferentes, mais 6 de bônus. A nave nunca deixa de se movimentar na tela e, ao manter pressionado o botão do joystick, voa mais rapidamente. Há dois sentinelas protegendo as células, disparando bolas de fogo. E não, você não atira.

O negócio é rapidamente desviar-se das bolas de fogo e tentar comer os quadradinhos o mais rápido possível. Comeu todos, próximo rack (fase). Até o sexto rack, cada célula (quadradinho) é única; a partir da sétima fase, as células são duplas, obrigando o jogador a passar duas vezes (similar a Q-Bert nos estágios mais avançados, onde os cubos precisam ser “pisados” mais de uma vez). Aqui entra uma novidade interessante: o “Skip-A-Rack™” (Sim, trademark: há um “Featuring the Skip-A-Rack Timer” gravado na caixa original do cartucho, hehe).

Se o jogador consegue comer todas as células antes do timer exibido no canto inferior-esquerdo da tela terminar, a próxima fase é pulada completamente — e o  melhor: todos os pontos referentes à mesma são somados ao score. Sacada genial: estimula a velocidade do jogador e, ao mesmo tempo, pode virar sua própria ruína: uma morte e o timer desaparece naquela fase, sem chance para tentar de novo. Mas você não deixa de correr no próximo rack: afinal, quem nunca desejou pular completamente uma fase? Mais gratificante, impossível! :) Algo similar acontece nas fases de bônus, porém o benefício neste caso é, no mínimo, curioso: se o jogador completar o Challenge Rack antes do medidor “challenge” desaparecer, é exibida uma letra na tela. E só.

Estes mistérios eram uma delícia, cortesia da época do Atari. Uma letra e nada mais. Como naquele tempo nem sempre (ou quase nunca) tínhamos acesso aos manuais dos jogos, estes acontecimentos tinham um sabor diferente. “H”, é a primeira letra exibida ao completar o primeiro Challenge Rack com sucesso; 5 fases depois, mais uma de bônus… e, caso consiga novamente comer todos os quadradinhos antes do CHALLENGE! desaparecer por completo, mais uma letra: “E”. Um código? O que devo fazer, anotar? Sim… havia algum tipo de prêmio oferecido pela CBS, possivelmente um emblema de pano similar ao que a Activision costumava enviar aos jogadores que “destravavam certos achievements” em seus jogos.

A partir do sétimo rack, com as células duplas, o desafio dá um verdadeiro salto. Há momentos emocionantes com você no controle, concentrado, desviando-se das bolas de fogo e, ao mesmo tempo, buscando o trajeto mais otimizado. É um daqueles jogos nos quais seu cérebro, após algumas partidas, consegue responder tão rapidamente que nem você mesmo acredita. Tanto que a última jogadinha do dia é a que costuma deixar o high-score. Claro que as aleatoriedades dos tiros dos sentinelas podem sabotar seu bom desempenho numa jogada aquecida… bom, é a vida no Atari 2600.

Também, Solar Fox apresenta o tipo de mecânica onde o desempenho costuma ser maior para aqueles que fazem questão de utilizar a excelente alavanca original do Atari 2600, ainda que jogando no teclado (por emulação) há a sensação imediata de estar jogando o bom e velho Nibbles que acompanhava os antigos MS-DOS e, mais tarde, os celulares.

Com incríveis 8 KB, Solar Fox é um ilustre desconhecido que até obteve melhor êxito comercial no console em comparação com o desempenho do original de arcade onde, por sinal, é possível atirar, o grid é visível e há presença de inimigos no campo de jogo — justificando o poder de fogo de sua nave. Sábia decisão do programador que fez o port ao remover o tiro da versão do Atari 2600 pois, ao jogá-lo no MAME, tive a impressão de estar lidando com um jogo típico de nave: atirando, sua estratégia muda naturalmente para algo mais ofensivo, digamos assim. De qualquer maneira, provavelmente o tiro foi removido do Atari por limitação do hardware ou mesmo pela falta de um botão adicional no controle… nunca saberemos.

Para exibir até uma dezena de bolas de fogo em movimento na tela, foi usado a famosa técnica de flicker, aquela do Pac-Man, onde os sprites são desenhados rapidamente em locais diferentes e a fosforecência das TVs da época garantiam a persistência do objeto na tela. Tanto que capturas de tela por emulação nunca captam mais do que duas bolas de fogo… mas não se engane: são até uma dezena delas na tela em alguns momentos na versão do Atari!

Claro. Solar Fox é “mais um jogo de Atari”, console de acervo díspare e pouco confiável por conta da liberdade de desenvolvimento, próprio de um tempo anterior ao conceito “[insira nome de uma empresa de console aqui] Seal Of Quality”. Mas não encare o Atari 2600 apenas pela nostalgia: há, sim, títulos desconhecidos que merecem atenção especial do velho retrogamer que há em todos nós.

Para ilustrar: pequeno vídeo com a “sexy” propaganda americana
do Solar Fox e uma partidinha aquecida (risos) do Cosmonal,
capturada diretamente do Atari da Polyvox do SuperConsole :)

Pelo jeito, a nova geração de jogadores de telefones celulares já esqueceu Nibbles e, volta a pergunta — desta vez, para eles: “Have you played Atari today”? Os atuais desenvolvedores de jogos casuais que o digam…

SCORE

GAMEPLAY: Mais direto e interessante do que a versão original de arcade 5/5
GRÁFICOS: Deixa a desejar, para onde foram os 8 KB? :) 2/5
SOM: Efeitos sonoros demasiadamente tradicionais, ruído branco “basicão”  2/5
TRILHA SONORA: “Arpejo de programador” no start, F- neste quesito! (risos) 1/5
DIFICULDADE: Suas partidas costumam durar menos de 5 minutos… 4/5

DADOS

NOME: Solar Fox
PLATAFORMA: Atari 2600, Commodore 64 e Arcade
DISPONÍVEL EM: Cartucho/ROM
ANO: 1983
DESENVOLVEDORA: Midway
DISTRIBUIDORA: CBS Electronics

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Full Throttle (PC)

Este post faz parte da série “Adventure no Cosmic Effect”

“Sempre que sinto cheiro de asfalto,
penso em
Maureen.”

Com essas palavras, em 30 de abril de 1995, surge o adventure mais rock and roll de todos os tempos: Full Throttle, mais um produto da mente imaginativa de Tim Schafer, patrocinado pela LucasArts. Aqui, o que vale é a atitude de Ben Whatsisname – um personagem marcante, seja nos trejeitos de coçar a densa barba, seja ao deixar mulheres no rastro de fogo do potente motor de sua motocicleta ou, ainda, mostrar a barmans punks a devida função de um piercing no nariz.

Situado num futuro industrialista não muito distante da nossa realidade, as motocicletas estão acabando no mundo e só existe um grande fabricante das clássicas – a Corley Motors (em clara referência a Harley Davidson). O braço direito do apaixonado dono deste império de motos está tramando transformar tudo num conglomerado de minivans. Cabe a você na pele de Ben, o líder da gangue Polecats, enfiar o pé na porta e proteger o seu estilo de vida.

O velho Corley e seu executivo maquiavélico Rip Burger conhecem os Polecats na estrada, após Ben arrancar uma estatueta de metal da ponta da limosine com sua Moto. Corley se empolga ao ver a vida “livre” que ele havia idealizado para si mesmo, antes de transformar sua paixão num grande negócio. Assim, ordena que parem o carro num pub mais a frente, onde acaba por beber e confraternizar com a gangue.

Logo fica claro, até pelo tom de voz de Rip Burger, seu desprezo por tudo que aqueles motoqueiros representam. A partir deste personagem, é possível elogiar toda a dublagem do game, de altíssima qualidade. Mark Hammil – o eterno Luke Skywalker – dá o tom vilanesco necessário para o jogador sentir desprezo por Burger, na mesma medida que a voz de Ben (Roy Conrad) dá a segurança do protagonista “durão”.

A interface de interação do Full Throttle já rompe com o estilo clássico da LucasArts, baseado na tabela de verbos. O “puzzle solving” ocorre a partir das escolhas feitas num painel que surge ao a pressionar o botão esquerdo do mouse.  Nesta divertida interface, estão presentes os ícones que permitem usar a boca, os olhos, a mão e o pé, além do tradicional e indispensável inventário. A agressividade inerente ao universo que o personagem está inserido é representada, inclusive, na arte desta ferramenta de interação – um verdadeiro trunfo de design. A mão em formato de esganar alguém, a bota pronta para chutar o que estiver no caminho e a caveira dando o tom rock’n roll – têm tudo a ver com o estilo de vida do personagem.

Full Throttle deixa claro, durante toda a aventura, que sua essência é a de acompanhar um homem que resolve as coisas da maneira mais direta possível. Ben é um anti-herói que não vai hesitar em derrubar uma porta só porque tem alguém atrás dela. Nas palavras do personagem: “Posso roubar e posso até machucar algumas pessoas de vez em quando; mas tudo por uma boa causa: autopreservação”.

A última imagem retrata precisamente essa idéia: o barrigudo caído (Todd) possuía em sua oficina uma ferramenta que Ben precisava. O motoqueiro, com toda sua educação, adentra da maneira mais convencional possível. Bate na porta, aguarda o preenchimento do olho mágico, e solta um belo chute. O jogador não pensou muito para resolver esse puzzle, mas a sensação é impagável.

Graficamente, o clássico da LucasArts tem algumas peculiaridades que merecem destaque. Além dos cenários com horizonte amplo, que contribuem para a sensação de aventura “on the road”, todos os personagens têm animações interessantes, cujo maior mérito é dar a impressão de vida ao ambiente.

Full Throttle conta com um sistema de filme interativo quando você cai na estrada com a motocicleta: dá pra trocar de pista com o mouse e clicar quando avistar a placa equivalente ao lugar que deseja ir. Uma adição interessante ao ritmo típico dos adventures, contribuindo com a imersão do biker e sua moto. Por sinal, esta é quase uma extensão do próprio corpo de Ben, como ele mesmo gosta de dizer se o jogador tentar andar em direção à estrada: “ I don’t walk” (não ando a pé).

Ainda se referindo aos trechos filme interativo/ação de Full Throttle: a princípio, muitos podem estranhar um adventure da LucasArts com alguma ação de verdade; no entanto, é mais um “hit” da genialidade do Tim Schafer.

A ação aqui não é um fim, mas sim meio para uma maneira pecular de solucionar charadas. Ao colocar o pé na estrada, você vai conhecer as diversas gangues através das figuras dos hostis motoqueiros. Cada biker apresenta uma arma diferente que poderá ser adquirida por Ben, sendo que alguns vão precisar do uso especifico de determinadas armas para serem vencidos. Ou, ainda, vencê-los pode significar conseguirmos o que for necessário à continuação da aventura.

Em determinado ponto do jogo, por exemplo, é necessário conseguir dois itens para avançar: o turbo, que deve ser adicionado à moto e que um dos motoqueiros que encontramos possui – sempre tirando com a cara de Ben ao cair fora em super velocidade – e os óculos especiais usados pelos Cavefish, gangue com visual baseado no povo da areia de Star Wars. Ambos oponentes só podem ser vencidos com armas específicas.

A partir da peculiaridade de como derrubar esses oponentes de suas motos, de modo a adquirir os seus respectivos itens, surge o puzzle. Nenhuma arma além da corrente vai te fazer vencer o dono do turbo: pelo raciocínio “adventuresco”, somente esta poderia enrolar e segurar o individuo em disparada. Na mesma linha, a paulada que deve ser dada com uma tábua de madeira nos Cavefish: se eles autodestroem-se antes de ceder sua tecnologia, que outra melhor maneira de colocar alguém para dormir que uma bela cacetada na cabeça?

Olhando por cima, Full Throttle é um game sério com altas doses de sarcarmo (bem adultas) e repleto de referências que fazem rir os apreciadores da cultura pop.

A fotógrafa Miranda, que tem importante participação na trama, chega ao ponto de mandar um “Help me Ben, you’re my only hope” – referência à frase da Princesa Léia direcionada a Obi Wan Kenobi (também chamado de Ben Kenobi no filme) em Star Wars Episódio IV.

Como não citar o velho dono da loja de Souvenirs? Encontra-se nas imediações do estádio de “Demolition Derby” da Corley Motors: o personagem possue um chapéu de refrigerante, e pede para que Ben não roube nada de sua loja – mas isso é exatamente o que o jogador pretende fazer lá.

Além dos personagens pitorescos, o game trás também situações emblemáticas funcionando como verdadeiros clímax na história. A apresentação das Minivans, por exemplo, é quase como um daqueles momentos em filmes no qual o expectador acha que tudo está perdido. A sensação é de “oh não, vão extinguir os motoqueiros”. De repente, um mundo sem motoqueiros seria um lugar sem graça.

Full Throttle tem grande importância para mim e muitos jogadores de PC dos anos 90, não só por ser um grande adventure, mas por ter sido o primeiro que joguei, quando ainda era uma criança.

Meu pai havia jogado e, então, apresentou-o para mim – uma vez que, na época, já havia sido legendado em português pela Brasoft. Já terminei várias vezes (tudo bem que é curto) e lembro de bastante coisa, mas se a memória ou o raciocínio falharem… posso me valer do walkthru elaborado pelo meu velho, que vou homenagear na figura do “Father Torque” – mentor do Ben que não fica claro se realmente é seu pai no game. Enfim, gostaria de disponibilizar, à título de curiosidade para os amigos do Cosmic Effect, o link para quem quiser fazer o download deste hintbook de origem baiana, no melhor estilo “formatação arquivo .NFO dos anos 90” incluindo FILE_ID.DIZ e arte ASCII no TXT! Recomendação adicional para os aficionados pelos bons tempos do MS-DOS e BBS :)

Download hintbook (com saves) de Full Throttle

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Todos os jogos da série “Adventure no Cosmic Effect”

The Secret Of Monkey Island (PC) por Sérgio Oliveira
Full Throttle (PC) por Sérgio Oliveira

A Trilha Sonora No PC Speaker: The Secret Of Monkey Island

Amigos, o IBM-PC foi responsável por fortes emoções nas vidas de muitos retrogamers. Eu mesmo fui um dos que até abandonou os consoles por um tempo, após ganhar um 386 em 1994, de tão seduzido que estava pela trinca IBM, Microsoft e Intel. Antes disso, costumava jogar na casa de dois amigos distintos, em seus 286 poderosíssimos. Um deles possuía apenas monitor CGA de fósforo verde. Prince of Persia era incrível, mas… a ausência de cores era um “turn-off”. Já o outro amigo… possuía um incrível monitor VGA, que exibia absurdos 640 x 480 pixels, além das cores – que não eram poucas.

Mais incrível do que a resolução, era a nitidez daqueles pixels na tela. A conexão padrão dos IBM-PC era a chamada RGB, que era algo a frente do tempo em qualidade. Para se ter uma idéia, é tão boa quanto a recém-chegada (e já em processo de abandono…) conexão Video Componente, presente nas TVs de LCD atuais. Pois, quem jogava em PC já gozava dessa nitidez desde a década de 80. Sabe essa moda de imagem com pixels estourados? A gente só via os pixels desse jeitinho nos monitores super-nítidos dos PCs – os videogames ganhavam um “anti-aliasing* gratuito” por conta da TV de CRT, que adorava borrar as imagens.

Placa de som era artigo de luxo nos computadores que rodavam MS-DOS. Era engraçado: jogos incríveis graficamente, como Wolfenstein 3D,  com sons muito mais rudimentares que os do Atari 2600, por exemplo – um contra-senso. E olha que eu tive a sorte de ver Wolf 3D logo na primeira vez num monitor VGA, o que só aumentava o “absurdo” que aqueles sons representavam.

Outro exemplo chocante: Wing Commander. Uma super-produção, um negócio que a gente nunca sonharia ver num videogame, ou mesmo no arcade. A abertura apresentava cenas animadas que pareciam ter saído de um Star Wars. Já dentro do cockpit da nave, o jogo começa e… o som do tiro… era mais simples que o de Defender do Atari. A estranheza sonora do IBM-PC ia além: praticamente todos os outros micro-computadores da época tinham sintetizadores de som excelentes. Porém, o mais poderoso dentre todos era o PC: mais memória, processador muito mais rápido, processamento de vídeo superior. Mas o som… uma lástima. E as placas eram caras – já era difícil ter um clone do IBM-PC no Brasil, quanto mais um acessório que custava até 300 dólares.

O tempo passou. Em meados dos anos 90, os “bons” PCs eram comprados com um “Kit Multimídia” no pacote. Os leitores do Cosmic Effect devem lembrar: a Creative Labs colocava numa caixa enorme e vistosa um drive de CD-ROM, vários CDs (e disquetes também) com conteúdo “multimídia”, além de alguns ótimos jogos e… uma placa de som! Agora sim, a diversão estava completa. Como sempre, o PC é a plataforma da flexibilidade: haviam placas de som para todos os gostos e bolsos, desde os tempos mais remotos.

Até expandir a memória da placa de som era possível – eu mesmo tenho até hoje uma SoundBlaster AWE32 com 32 MB de RAM, memória essa comprada meses após adquirir a placa. Era possível utilizar mais de uma placa no mesmo micro, ou até mesmo configurar a música do jogo para ser tocada por um… teclado! Utilizando as conexões MIDI que acompanhavam 90% das placas de som, quem tinha um teclado musical com portas MIDI poderia utilizar seu banco de som para ser controlado pelo jogo.

Os efeitos sonoros continuavam gerados pela placa de som – somente a trilha sonora era executada pelo instrumento MIDI. Era fantástico, porque dependendo da qualidade do teclado, as músicas ficavam ótimas. Eu possuía um teclado mediano, porém muito superior ao chip de música das placas de som típicas de PC – o chamado “padrão SoundBlaster/Adlib”. Lembro como hoje da surpresa que foi escutar a abertura de X-Wing, jogo inesquecível da LucasArts do universo de Star Wars, com o tema de John Williams sendo executado pelo meu teclado. Os efeitos sonoros eram digitalizados do filme, completando a experiência. Na prática, a possibilidade de conectar um instrumento musical no PC era restrita a, naturalmente, músicos que possuíam computadores.

Porém, existiam módulos de timbres que podiam ser adquiridos para compor este setup. Estes módulos nada mais eram do que “teclados sem as teclas”, ou seja: os sons dos instrumentos estavam lá para serem acessados de alguma maneira. Uma delas… era pelos jogos de MS-DOS! Mas aí o negócio é bem restrito, esses módulos eram caros demais, coisa de entusiasta endinheirado. Quem reclama, hoje em dia, que jogar em PC é caro, é porque não conhece o histórico da plataforma…. o negócio nunca foi diferente.

Nos anos 2000, a placa de som integrou-se à placa-mãe. Ninguém mais tinha computador sem som, sem música. Acabou a confusão sonora. Os jogos deixaram de usar o padrão MIDI, passando a soar rigosamente igual em qualquer PC. E, finalmente, chegamos à época atual, onde os velhos jogadores passaram a apreciar e cultivar o passado. Assim como o feijão que a mamãe faz e o filho não resiste, mesmo não sendo aquela feijoada completa de um restaurante, o som do PC Speaker marcou época e traz nostalgia.

Mas, diferentemente da moda dos chiptunes que homenageiam os chips sonoros mais flexíveis, como o do NES ou de computadores como o Commodore 64 (nota: não entendo por que não há compositores de chiptune que não utilizam sons do Master System/MSX, que falta de consideração! :P), o som do PC Speaker parece ter sido esquecido. Bem… não pelo Cosmic Effect!

Como sabemos, limitações sempre aguçaram as mentes dos programadores de jogos. Eles parecem funcionar melhor nessas situações de “aperto”. O PC Speaker é uma mera caixinha de som, nem é uma interface de som – longe disso. Foi criado para dar feedback ao usuário: ou seja, pra “bipar quando dá erro”. O som é programado pela própria CPU, que funciona como “placa de som”. Ou seja, como o PC Speaker é só uma caixa de som, qualquer som que a CPU gerar, tá valendo – vai sair na caixinha interna do PC. Só que, para isso acontecer de maneira “satisfatória”, o processador precisaria trabalhar dedicado demasiadamente a aquela tarefa.

Sabe quando o NES ou o Master System congelavam quando precisavam gerar um som digitalizado, como um grito? Aconteceria o mesmo se o PC quisesse tocar uma musiquinha mais elaborada pelo PC Speaker. Então, na prática, os programadores utilizaram “sons pré-programados” que a BIOS disponibilizava. Estes sons eram beeps monofônicos e nada mais.

A LucasArts foi uma das empresas que operou milagres utilizando o beep do PC. Até mesmo a impressão de que a música era polifônica (mais de um som ao mesmo tempo) ela conseguiu. E um jogo que se beneficiou bastante do esforço destes programadores e músicos foi o nosso delicioso The Secret Of Monkey Island. O adventure mais charmoso da história começava com um tema de abertura fenomenal – MESMO no PC Speaker. Ele dava o tom de aventura, com um pouco de deboche – como o próprio jogo é. Uma obra de arte, com um único som, um único timbre. Intitulada “Deep In The Caribbean…”, foi composta por Michael Land, um dos principais compositores dos jogos LucasArts daquele tempo.

Eu tentei até gravar em fita cassete, na casa do amigo que tinha o 286, a tal música de abertura de Monkey. Sim, a versão do PC Speaker mesmo… mas não consegui fazê-lo. Alguns anos mais tarde, quando ganhei o 386, não precisava mais disso. Bastava digitar:

CD\GAMES\MONKEY [enter]
MONKEY [enter]

…e escutar, mesmo sem placa de som. Então, amigos, apresento-lhes a trilha sonora original do The Secret Of Monkey Island gravada diretamente do PC Speaker (sem emulação, gravação de um PC real!). Volte ao início dos anos 90 conosco ou, caso não conheça a trilha de Monkey no PC Speaker, aproveite e descubra mais uma fronteira que só pode ser cruzada pelo jogador de videogame: imaginar uma grande música a partir de um som tão simples e rudimentar quanto… um beep.

Trilha Sonora completa em versão PC Speaker de
The Secret Of Monkey Island (1990, LucasArts).
Composta por Michael Land.

Para comparação: trilha da versão de 1992, em CD-ROM,
com as músicas no formato digital de CD.

E, por fim, a melhor versão, em minha humilde opinião,
da “Deep In The Caribbean…”, música-tema da série,
presente no The Curse Of Monkey Island (1997).

É a realização definitiva da “imaginação sonora”
que o PC Speaker havia criado para nós…

Créditos para a gravação direta do PC Speaker são do zeitgestalten.
*Anti-Aliasing: filtro gráfico que diminui os efeitos do serrilhado.

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Cosmic Cast #8 – Game & Music II

Com a ótima e inesperada recepção da nossa comunidade de retrogamers brasileiros ao Cosmic Cast #5 – Game & Music, nós do Cosmic Effect decidimos brincar mais uma vez com a história de juntar um jogo antigo com uma música de preferência igualmente velhinha. O objetivo é brindar a relação deliciosa que bons jogos de videogame possuem com a boa música.

Só que desta vez, convidamos 7 blogueiros que admiramos e um ilustre leitor dos nossos blogs de videogame, para que eles selecionassem e nos contassem uma historinha acerca de cada jogo/música escolhidos. Recebi emails maravilhosos com histórias empolgantes e até emocionantes, com material suficiente para umas 3 horas de vídeo (calma, o vídeo ficou bem menor do que isso!).

Além de ótimos escolhas em jogos, as escolhas musicais me fizeram concluir de uma vez por todas: retrogamer tem um gosto muito requintado pra música. Para minha grata surpresa, OITO das 37 (!) músicas que os amigos retrogamers escolheram são favoritíssimas do meu repertório – isso garantiu um prazer adicional durante a edição do vídeo. Pareciam escolhas pessoais. A música que fecha o vídeo é uma delas… mas vou deixar vocês assistirem, não é? :) Pra terminar, músicas de bandas que eu tinha algum preconceito me foram gratas surpresas e alguns artistas desconhecidos citados por alguns blogueiros me fizeram procurar pela discografia inteira…

Será que a boa música que cultivamos ao longo do tempo influencia até mesmo nas nossas boas escolhas de jogos eletrônicos? O contrário também poderia ser verdade? De qualquer maneira, faço questão de fazer um último pedido: aumente o volume do seu notebook, iPad, iPhone ou de preferência daquele seu desktop com aquelas caixas de som turbinadas antes de clicar no play. Não ouça esta seleção com volume baixo. E preste bastante atenção nas divertidas, inusitadas e emocionantes histórias que os amigos retrogamers compartilharam conosco.

Enfim, o Cosmic Effect orgulhosamente apresenta:

Cosmic Cast

Episódio #8: Game & Music II

No YouTube, a reprodução das músicas foi desabilitada por violação de copyright :(

O Cosmic Effect é imensamente grato a:

Orakio Rob, “O Gagá”
André Breder “Andremcleod”
Thiago Cruz “O Senil”
Gagá Games (www.gagagames.com.br)

Marcos Valverde “mcs”
Rafael Fernandes “Rafael00Agent”
Passagem Secreta (passagemsecreta.wordpress.com)

Manoel Soares “Manogamesenior”
Reinaldo Ferreira “OldGameMaster”
Revista Game Sênior (revistagamesenior.wordpress.com)

E o ilustre leitor Douglas Oliveira “Sephrox”.

Nossos canais somente com os vídeos da série Cosmic Cast:

No YouTube
http://www.youtube.com/user/CosmicEffectGaming

No Vimeo
http://www.vimeo.com/user4397129

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Cosmic Cast #3 – Bioforge

Continuando nossa série de videos sobre a cultura dos videogames, apresentamos o terceiro episódio do Cosmic Cast: o clássico, adventure, revolucionário e inteligente Bioforge, exclusivamente lançado para MS-DOS em 1995. Desenvolvido pela Origin Systems, famosa pelas séries Ultima e Wing Commander, o game conta a história de Lex (ou “Experimental Unit 127”) que acorda preso numa espécie de cela-laboratório sem memórias e com um exoesqueleto cyborg.

Cosmic Cast

Episódio #3: Bioforge

Inicialmente concebido como um filme interativo pelo criador da série Ultima, o mestre Richard Garriot, Biofoge foi um jogo à frente do seu tempo, não somente em requerimentos de hardware; apresentava um alto valor de produção e demonstrou que é possível realmente tornar interessante a história num videogame, quando o gameplay funciona bem integrado. É um jogo que passou despercebido por muitos, principalmente por apresentar bastante texto, mesmo não sendo um RPG. O game não possui interface visível – justamente para garantir a imersão e mantém-se fiel à idéia original de ser um filme de ficção-científica no formato videogame. E o mais importante: sem perder os elementos que o tornam um (grande) videogame. Bioforge é um jogo de exploração e de excelentes quebra-cabeças, alguns deles apresentando um bom grau de dificuldade, o que até reforça a experiência.

Uma continuação era prevista e foi até iniciada pela Origin, mas foi cancelada abruptamente. O nome do capítulo seguinte seria “Bioforge Plus” e é possível encontrar alguns vídeos pela web com a introdução e até mesmo de algum gameplay. Como a Origin foi adquirida pela Electronic Arts, sempre existe a esperança alimentada pelos fãs deste jogo de que um dia saia – se não a continuação, o remake. Dead Space, sucesso recente que é da EA (desenvolvido e publicado), apresenta muitos elementos certamente inspirados em Bioforge.

Este vídeo demonstra o gameplay inicial deste clássico da década de 90, apresentando alguns detalhes que certamente serão percebidos  e aproveitados pelo jogador que decidir experimentar esta verdadeira pérola da plataforma MS-DOS. Sem mais delongas, conheçam Bioforge!

Nossos canais somente com os vídeos da série Cosmic Cast:

No YouTube
http://www.youtube.com/user/CosmicEffectGaming

No Vimeo
http://www.vimeo.com/user4397129

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