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Gamesfera 009 – Copia esse jogo pra mim?

Qual lei humana impede o indivíduo de dividir suas vivências?

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Full Throttle (PC)

Este post faz parte da série “Adventure no Cosmic Effect”

“Sempre que sinto cheiro de asfalto,
penso em
Maureen.”

Com essas palavras, em 30 de abril de 1995, surge o adventure mais rock and roll de todos os tempos: Full Throttle, mais um produto da mente imaginativa de Tim Schafer, patrocinado pela LucasArts. Aqui, o que vale é a atitude de Ben Whatsisname – um personagem marcante, seja nos trejeitos de coçar a densa barba, seja ao deixar mulheres no rastro de fogo do potente motor de sua motocicleta ou, ainda, mostrar a barmans punks a devida função de um piercing no nariz.

Situado num futuro industrialista não muito distante da nossa realidade, as motocicletas estão acabando no mundo e só existe um grande fabricante das clássicas – a Corley Motors (em clara referência a Harley Davidson). O braço direito do apaixonado dono deste império de motos está tramando transformar tudo num conglomerado de minivans. Cabe a você na pele de Ben, o líder da gangue Polecats, enfiar o pé na porta e proteger o seu estilo de vida.

O velho Corley e seu executivo maquiavélico Rip Burger conhecem os Polecats na estrada, após Ben arrancar uma estatueta de metal da ponta da limosine com sua Moto. Corley se empolga ao ver a vida “livre” que ele havia idealizado para si mesmo, antes de transformar sua paixão num grande negócio. Assim, ordena que parem o carro num pub mais a frente, onde acaba por beber e confraternizar com a gangue.

Logo fica claro, até pelo tom de voz de Rip Burger, seu desprezo por tudo que aqueles motoqueiros representam. A partir deste personagem, é possível elogiar toda a dublagem do game, de altíssima qualidade. Mark Hammil – o eterno Luke Skywalker – dá o tom vilanesco necessário para o jogador sentir desprezo por Burger, na mesma medida que a voz de Ben (Roy Conrad) dá a segurança do protagonista “durão”.

A interface de interação do Full Throttle já rompe com o estilo clássico da LucasArts, baseado na tabela de verbos. O “puzzle solving” ocorre a partir das escolhas feitas num painel que surge ao a pressionar o botão esquerdo do mouse.  Nesta divertida interface, estão presentes os ícones que permitem usar a boca, os olhos, a mão e o pé, além do tradicional e indispensável inventário. A agressividade inerente ao universo que o personagem está inserido é representada, inclusive, na arte desta ferramenta de interação – um verdadeiro trunfo de design. A mão em formato de esganar alguém, a bota pronta para chutar o que estiver no caminho e a caveira dando o tom rock’n roll – têm tudo a ver com o estilo de vida do personagem.

Full Throttle deixa claro, durante toda a aventura, que sua essência é a de acompanhar um homem que resolve as coisas da maneira mais direta possível. Ben é um anti-herói que não vai hesitar em derrubar uma porta só porque tem alguém atrás dela. Nas palavras do personagem: “Posso roubar e posso até machucar algumas pessoas de vez em quando; mas tudo por uma boa causa: autopreservação”.

A última imagem retrata precisamente essa idéia: o barrigudo caído (Todd) possuía em sua oficina uma ferramenta que Ben precisava. O motoqueiro, com toda sua educação, adentra da maneira mais convencional possível. Bate na porta, aguarda o preenchimento do olho mágico, e solta um belo chute. O jogador não pensou muito para resolver esse puzzle, mas a sensação é impagável.

Graficamente, o clássico da LucasArts tem algumas peculiaridades que merecem destaque. Além dos cenários com horizonte amplo, que contribuem para a sensação de aventura “on the road”, todos os personagens têm animações interessantes, cujo maior mérito é dar a impressão de vida ao ambiente.

Full Throttle conta com um sistema de filme interativo quando você cai na estrada com a motocicleta: dá pra trocar de pista com o mouse e clicar quando avistar a placa equivalente ao lugar que deseja ir. Uma adição interessante ao ritmo típico dos adventures, contribuindo com a imersão do biker e sua moto. Por sinal, esta é quase uma extensão do próprio corpo de Ben, como ele mesmo gosta de dizer se o jogador tentar andar em direção à estrada: “ I don’t walk” (não ando a pé).

Ainda se referindo aos trechos filme interativo/ação de Full Throttle: a princípio, muitos podem estranhar um adventure da LucasArts com alguma ação de verdade; no entanto, é mais um “hit” da genialidade do Tim Schafer.

A ação aqui não é um fim, mas sim meio para uma maneira pecular de solucionar charadas. Ao colocar o pé na estrada, você vai conhecer as diversas gangues através das figuras dos hostis motoqueiros. Cada biker apresenta uma arma diferente que poderá ser adquirida por Ben, sendo que alguns vão precisar do uso especifico de determinadas armas para serem vencidos. Ou, ainda, vencê-los pode significar conseguirmos o que for necessário à continuação da aventura.

Em determinado ponto do jogo, por exemplo, é necessário conseguir dois itens para avançar: o turbo, que deve ser adicionado à moto e que um dos motoqueiros que encontramos possui – sempre tirando com a cara de Ben ao cair fora em super velocidade – e os óculos especiais usados pelos Cavefish, gangue com visual baseado no povo da areia de Star Wars. Ambos oponentes só podem ser vencidos com armas específicas.

A partir da peculiaridade de como derrubar esses oponentes de suas motos, de modo a adquirir os seus respectivos itens, surge o puzzle. Nenhuma arma além da corrente vai te fazer vencer o dono do turbo: pelo raciocínio “adventuresco”, somente esta poderia enrolar e segurar o individuo em disparada. Na mesma linha, a paulada que deve ser dada com uma tábua de madeira nos Cavefish: se eles autodestroem-se antes de ceder sua tecnologia, que outra melhor maneira de colocar alguém para dormir que uma bela cacetada na cabeça?

Olhando por cima, Full Throttle é um game sério com altas doses de sarcarmo (bem adultas) e repleto de referências que fazem rir os apreciadores da cultura pop.

A fotógrafa Miranda, que tem importante participação na trama, chega ao ponto de mandar um “Help me Ben, you’re my only hope” – referência à frase da Princesa Léia direcionada a Obi Wan Kenobi (também chamado de Ben Kenobi no filme) em Star Wars Episódio IV.

Como não citar o velho dono da loja de Souvenirs? Encontra-se nas imediações do estádio de “Demolition Derby” da Corley Motors: o personagem possue um chapéu de refrigerante, e pede para que Ben não roube nada de sua loja – mas isso é exatamente o que o jogador pretende fazer lá.

Além dos personagens pitorescos, o game trás também situações emblemáticas funcionando como verdadeiros clímax na história. A apresentação das Minivans, por exemplo, é quase como um daqueles momentos em filmes no qual o expectador acha que tudo está perdido. A sensação é de “oh não, vão extinguir os motoqueiros”. De repente, um mundo sem motoqueiros seria um lugar sem graça.

Full Throttle tem grande importância para mim e muitos jogadores de PC dos anos 90, não só por ser um grande adventure, mas por ter sido o primeiro que joguei, quando ainda era uma criança.

Meu pai havia jogado e, então, apresentou-o para mim – uma vez que, na época, já havia sido legendado em português pela Brasoft. Já terminei várias vezes (tudo bem que é curto) e lembro de bastante coisa, mas se a memória ou o raciocínio falharem… posso me valer do walkthru elaborado pelo meu velho, que vou homenagear na figura do “Father Torque” – mentor do Ben que não fica claro se realmente é seu pai no game. Enfim, gostaria de disponibilizar, à título de curiosidade para os amigos do Cosmic Effect, o link para quem quiser fazer o download deste hintbook de origem baiana, no melhor estilo “formatação arquivo .NFO dos anos 90” incluindo FILE_ID.DIZ e arte ASCII no TXT! Recomendação adicional para os aficionados pelos bons tempos do MS-DOS e BBS :)

Download hintbook (com saves) de Full Throttle

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Full Throttle (PC) por Sérgio Oliveira