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Full Throttle (PC)

Este post faz parte da série “Adventure no Cosmic Effect”

“Sempre que sinto cheiro de asfalto,
penso em
Maureen.”

Com essas palavras, em 30 de abril de 1995, surge o adventure mais rock and roll de todos os tempos: Full Throttle, mais um produto da mente imaginativa de Tim Schafer, patrocinado pela LucasArts. Aqui, o que vale é a atitude de Ben Whatsisname – um personagem marcante, seja nos trejeitos de coçar a densa barba, seja ao deixar mulheres no rastro de fogo do potente motor de sua motocicleta ou, ainda, mostrar a barmans punks a devida função de um piercing no nariz.

Situado num futuro industrialista não muito distante da nossa realidade, as motocicletas estão acabando no mundo e só existe um grande fabricante das clássicas – a Corley Motors (em clara referência a Harley Davidson). O braço direito do apaixonado dono deste império de motos está tramando transformar tudo num conglomerado de minivans. Cabe a você na pele de Ben, o líder da gangue Polecats, enfiar o pé na porta e proteger o seu estilo de vida.

O velho Corley e seu executivo maquiavélico Rip Burger conhecem os Polecats na estrada, após Ben arrancar uma estatueta de metal da ponta da limosine com sua Moto. Corley se empolga ao ver a vida “livre” que ele havia idealizado para si mesmo, antes de transformar sua paixão num grande negócio. Assim, ordena que parem o carro num pub mais a frente, onde acaba por beber e confraternizar com a gangue.

Logo fica claro, até pelo tom de voz de Rip Burger, seu desprezo por tudo que aqueles motoqueiros representam. A partir deste personagem, é possível elogiar toda a dublagem do game, de altíssima qualidade. Mark Hammil – o eterno Luke Skywalker – dá o tom vilanesco necessário para o jogador sentir desprezo por Burger, na mesma medida que a voz de Ben (Roy Conrad) dá a segurança do protagonista “durão”.

A interface de interação do Full Throttle já rompe com o estilo clássico da LucasArts, baseado na tabela de verbos. O “puzzle solving” ocorre a partir das escolhas feitas num painel que surge ao a pressionar o botão esquerdo do mouse.  Nesta divertida interface, estão presentes os ícones que permitem usar a boca, os olhos, a mão e o pé, além do tradicional e indispensável inventário. A agressividade inerente ao universo que o personagem está inserido é representada, inclusive, na arte desta ferramenta de interação – um verdadeiro trunfo de design. A mão em formato de esganar alguém, a bota pronta para chutar o que estiver no caminho e a caveira dando o tom rock’n roll – têm tudo a ver com o estilo de vida do personagem.

Full Throttle deixa claro, durante toda a aventura, que sua essência é a de acompanhar um homem que resolve as coisas da maneira mais direta possível. Ben é um anti-herói que não vai hesitar em derrubar uma porta só porque tem alguém atrás dela. Nas palavras do personagem: “Posso roubar e posso até machucar algumas pessoas de vez em quando; mas tudo por uma boa causa: autopreservação”.

A última imagem retrata precisamente essa idéia: o barrigudo caído (Todd) possuía em sua oficina uma ferramenta que Ben precisava. O motoqueiro, com toda sua educação, adentra da maneira mais convencional possível. Bate na porta, aguarda o preenchimento do olho mágico, e solta um belo chute. O jogador não pensou muito para resolver esse puzzle, mas a sensação é impagável.

Graficamente, o clássico da LucasArts tem algumas peculiaridades que merecem destaque. Além dos cenários com horizonte amplo, que contribuem para a sensação de aventura “on the road”, todos os personagens têm animações interessantes, cujo maior mérito é dar a impressão de vida ao ambiente.

Full Throttle conta com um sistema de filme interativo quando você cai na estrada com a motocicleta: dá pra trocar de pista com o mouse e clicar quando avistar a placa equivalente ao lugar que deseja ir. Uma adição interessante ao ritmo típico dos adventures, contribuindo com a imersão do biker e sua moto. Por sinal, esta é quase uma extensão do próprio corpo de Ben, como ele mesmo gosta de dizer se o jogador tentar andar em direção à estrada: “ I don’t walk” (não ando a pé).

Ainda se referindo aos trechos filme interativo/ação de Full Throttle: a princípio, muitos podem estranhar um adventure da LucasArts com alguma ação de verdade; no entanto, é mais um “hit” da genialidade do Tim Schafer.

A ação aqui não é um fim, mas sim meio para uma maneira pecular de solucionar charadas. Ao colocar o pé na estrada, você vai conhecer as diversas gangues através das figuras dos hostis motoqueiros. Cada biker apresenta uma arma diferente que poderá ser adquirida por Ben, sendo que alguns vão precisar do uso especifico de determinadas armas para serem vencidos. Ou, ainda, vencê-los pode significar conseguirmos o que for necessário à continuação da aventura.

Em determinado ponto do jogo, por exemplo, é necessário conseguir dois itens para avançar: o turbo, que deve ser adicionado à moto e que um dos motoqueiros que encontramos possui – sempre tirando com a cara de Ben ao cair fora em super velocidade – e os óculos especiais usados pelos Cavefish, gangue com visual baseado no povo da areia de Star Wars. Ambos oponentes só podem ser vencidos com armas específicas.

A partir da peculiaridade de como derrubar esses oponentes de suas motos, de modo a adquirir os seus respectivos itens, surge o puzzle. Nenhuma arma além da corrente vai te fazer vencer o dono do turbo: pelo raciocínio “adventuresco”, somente esta poderia enrolar e segurar o individuo em disparada. Na mesma linha, a paulada que deve ser dada com uma tábua de madeira nos Cavefish: se eles autodestroem-se antes de ceder sua tecnologia, que outra melhor maneira de colocar alguém para dormir que uma bela cacetada na cabeça?

Olhando por cima, Full Throttle é um game sério com altas doses de sarcarmo (bem adultas) e repleto de referências que fazem rir os apreciadores da cultura pop.

A fotógrafa Miranda, que tem importante participação na trama, chega ao ponto de mandar um “Help me Ben, you’re my only hope” – referência à frase da Princesa Léia direcionada a Obi Wan Kenobi (também chamado de Ben Kenobi no filme) em Star Wars Episódio IV.

Como não citar o velho dono da loja de Souvenirs? Encontra-se nas imediações do estádio de “Demolition Derby” da Corley Motors: o personagem possue um chapéu de refrigerante, e pede para que Ben não roube nada de sua loja – mas isso é exatamente o que o jogador pretende fazer lá.

Além dos personagens pitorescos, o game trás também situações emblemáticas funcionando como verdadeiros clímax na história. A apresentação das Minivans, por exemplo, é quase como um daqueles momentos em filmes no qual o expectador acha que tudo está perdido. A sensação é de “oh não, vão extinguir os motoqueiros”. De repente, um mundo sem motoqueiros seria um lugar sem graça.

Full Throttle tem grande importância para mim e muitos jogadores de PC dos anos 90, não só por ser um grande adventure, mas por ter sido o primeiro que joguei, quando ainda era uma criança.

Meu pai havia jogado e, então, apresentou-o para mim – uma vez que, na época, já havia sido legendado em português pela Brasoft. Já terminei várias vezes (tudo bem que é curto) e lembro de bastante coisa, mas se a memória ou o raciocínio falharem… posso me valer do walkthru elaborado pelo meu velho, que vou homenagear na figura do “Father Torque” – mentor do Ben que não fica claro se realmente é seu pai no game. Enfim, gostaria de disponibilizar, à título de curiosidade para os amigos do Cosmic Effect, o link para quem quiser fazer o download deste hintbook de origem baiana, no melhor estilo “formatação arquivo .NFO dos anos 90” incluindo FILE_ID.DIZ e arte ASCII no TXT! Recomendação adicional para os aficionados pelos bons tempos do MS-DOS e BBS :)

Download hintbook (com saves) de Full Throttle

* * *

Todos os jogos da série “Adventure no Cosmic Effect”

The Secret Of Monkey Island (PC) por Sérgio Oliveira
Full Throttle (PC) por Sérgio Oliveira

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17 Respostas

  1. De todos os point and click que eu já joguei, é o meu favorito. Totalmente fodástico!! Belo post.

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    • Com certeza Full Throttle é o favorito de muita gente, esse adventure tem uma coisa especial de ter sido jogado por muitos. Sempre que converso com alguém sobre games do gênero, as vezes um não gamer que não sabe nem definir o estilo, eu digo: ” Aqueles jogos estilo Full Throttle”, a resposta geralmente é um: ” Ah, esse ai eu sei, de fuder” Hahahaha.

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  2. Bons tempos onde a criatividade , era a chave do sucesso.

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    • Criatividade, com certeza uma peça chave ao entreterimento,em falta hoje em dia, inclusive por parte da LucasArts, que só faz game de Star Wars.

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  3. Cláaaaaaassico!!! Estava esperando esse post colega! E o post fez jus à expectativa! Muito bom mesmo! Parabéns!!!

    Olha… quem lembra aqui que esse jogo vinha incluído num Kit Multimedia vendido na época? Ainda guardo o CD original e vou guardar sempre comigo!

    Grande lembranças…. ótimo post!

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  4. nossa… meu professor estava falando de Full Throttle ontem , encaminhei esse link pra ele ler.
    Bem bacana, saudade do offline no PC

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    • Grande comentário, Offline no PC, e porque não dizer nos games em qualquer plataforma? Grandes histórias não podem ser contadas online, não dessa forma. Espero que as produtoras entendam que o lugar do multiplayer é no multiplayer, aplausos a Todd Howard e Bethesda que já excluiram a possibilidade de online no Elder Scrolls V Skyrim.

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  5. Grande post!
    Lembro que Full Throttle foi um daqueles raros classicos que, desde Metal Gear do MSX, reunia maior parte da turma pra tentar resolver os puzzers, admirar os graficos, as musicas ou simplesmente torcer por quem estava jogando.
    Parabens!

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    • Poxa Andrey, Metal Gear é minha série favorita dos games, mas nunca terminei os de MSX.

      Quanto a trilha sonora do Full Throttle, parece-me que é um dos poucos da LucasArts, que utilizavam música de bandas, mas é tão bem escolhido. A introdução para mim é a melhor do mundo dos games, valeu!

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      • A trilha sonora é muito boa mesmo. Lembro na época de ter importado o CD da banda. Lamentável terem roubado no meu carro anos depois… A quem ainda interessar, a banda é The Gone Jackals e o álbum da trilha do jogo é o Bone to Pick.

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  6. Este jogo, assim como muitos outros da Lucas Arts, é um clássico absoluto… pena que a L.A nunca mais quis fazer algo do tipo, só lançando coisa de Star Wars.

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    • Realmente Daniel, como eu disse num comentário anterior, agora é só Star Wars, apesar de muitos serem de qualidade. A LucasArts saiu de “cabeça de chave” de uma geração, para apenas mais uma grande empresa.

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  7. Sérgio muito bom seu post!
    Aliás Full Throttle merece,é um clássico incrível!
    Confesso que quando joguei pela primeira vez achei um pouco arrogante nosso personagem principal,mas isso aliado a muito bom humor e uma estética toda cheia de referências à música e ao cinema, tornou um cara grosseiro em um anti-herói muito carismático,sem dúvida já nas primeiras ações dentro jogo você fica preso a história toda.
    Sobre a interface do game você disse:

    “A agressividade inerente ao universo que o personagem está inserido é representada, inclusive, na arte desta ferramenta de interação ”

    Agressividade inerente…exatamente isso!
    Quando vi aqueles ícones ali da mão e da bota,eu pensei:
    “-Isso vai ser muito divertido de usar ha ha ha!”
    Sobre a questão dos Puzzles,no caso de usar a corrente,você disse:

    ” pelo raciocínio “adventuresco”, somente esta poderia enrolar e segurar o individuo em disparada”

    Cara adorei este “raciocínio adventuresco” e digo mais,foi exatamente este tipo de raciocínio que me motivou a continuar jogando Full Throttle sem desanimar,pois games em PC nunca foi minha plataforma principal e eu sentia até um certo estranhamento com todos estes jogos.Sempre fui mais um “soldado dos consoles” ha ha ha.
    Este é jogo muito importante para a geração 90 nos PC´s,qualquer roda de amigos saudosos que começam a falar de jogos antigos de PC,acaba inevitavelmente falando de Doom,Quake,JetPack(jogo viciante),e Full Throttle é claro.
    Para mim,Full Throttle é um jogo que lembra o Windows 95,lembra o kit multimedia,etc.Acabei de lembrar,nesta época joguei Need for Speed pela primeira vez,no PC é claro!
    Nunca fui um PCGamer,mas em 199X os computadores estavam começando a se tornar um eletrodoméstico,assim como a TV,é por isso que muita gente que nunca colocou as mãos em um joystick,já jogou ou conhece Full Throttle ou Need for Speed,por exemplo.Foi um período “boom” de vendas dos PC´s,quem não lembra dos cursos de inglês em CD-ROM(alguém fala CD-ROM hoje em dia?)lembro da enciclopédia Encarta,acho que a Microsoft subestimou a internet quando inventou a Encarta :),foi uma época que todo mundo esperava “dar” meia-noite para conectar discado na rede,ha ha ha por causa do pulso,eu usava o login IG senha IG ha ha ha,bons tempos.
    Sérgio,Full Trhottle é assim mesmo,quando a gente começa a lembrar dele acaba falando de muitas outras coisas também,isso é uma das características que define se um jogo é clássico ou não.

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    • Valeu Dactar, fico feliz que você tenha curtido essa visão própria que tenho do game e tentei transformar em palavras.

      Realmente Full Throttle sempre está presente nos games de PC comentados. Lembro que se gerou muita expectativa quando foi anunciada a continuação, depois de muitas críticas aos videos que saiam, a LucasArts cancelou, muito provavelmente para o bem de todos os fãs, hahahaha, grande abraço.

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  8. Muito bom, Fakepix! Adorei relembrar esse clássico. Mais um ótimo jogo da era de ouro da multimídia/interatividade no PC.

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