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Solar Fox (Atari 2600)

A Atari anda chateada com alguns desenvolvedores atuais. A companhia tem removido das lojas de aplicativos qualquer jogo que tenha a menor semelhança com seus títulos antigos. A popularidade do iPhone e Android como plataforma de games tem chamado a atenção da empresa que criou a indústria dos videogames. Assim como a música pop mostrou-se ser um movimento de estilos cíclicos, os jogos eletrônicos também têm demonstrado esta característica. Talvez, exatamente agora, estejamos justamente vicenciando a completude do seu primeiro ciclo.

Afinal, o que jogávamos no início dos anos 80? Qual era a mecânica predominante? Se você pensou nos assim chamados “jogos casuais”, estamos em pleno acordo. Outro dia saiu na loja de aplicativos da Apple um jogo intitulado Vector Tanks. Sim, Battlezone… “reimaginado” para os smartphones branquelos. Pois é amigos, quem diria: o Atari Flashback é muito mais do que o nome daquele console retrô sucesso de vendas nos EUA…

E ainda há muito terreno para peregrinação, especialmente no Atari 2600. Com seu hardware inspirador para engenheiros e programadores da época, não há como negar a genialidade eterna de certos títulos. Sem mencionar os Pitfalls e H.E.R.O.s da vida, temos ainda em sua biblioteca centenas de jogos de mecânica cativante, viciante e rápidos de compreender: a originalidade, para uns tão difícil de ser encontrada na indústria dos jogos, pode ser vista de camarote por aqueles que continuam jogando este console até os dias do hoje; até o final dos tempos…

Solar Fox pode vir a ser um bom exemplo. Um port relativamente fiel ao original de arcade da Midway, é um dos cartuchos desconhecidos que tem muito a oferecer no terreno da jogatina rápida, gratificante e — como estamos falando de retrogaming e não de jogos de smartphone — desafiadora.

Alguma coisa relacionada com o nosso planeta necessitando obter células de energia fora do nosso sistema solar por conta dos “séculos de desperdício” dos humanos e… ah, ora, onde é que eu atiro?

Em Solar Fox, o jogador controla uma espaçonave com movimentos limitados a uma grade não-visível, devendo comer quadradinhos (as “células solares”) em 20 fases diferentes, mais 6 de bônus. A nave nunca deixa de se movimentar na tela e, ao manter pressionado o botão do joystick, voa mais rapidamente. Há dois sentinelas protegendo as células, disparando bolas de fogo. E não, você não atira.

O negócio é rapidamente desviar-se das bolas de fogo e tentar comer os quadradinhos o mais rápido possível. Comeu todos, próximo rack (fase). Até o sexto rack, cada célula (quadradinho) é única; a partir da sétima fase, as células são duplas, obrigando o jogador a passar duas vezes (similar a Q-Bert nos estágios mais avançados, onde os cubos precisam ser “pisados” mais de uma vez). Aqui entra uma novidade interessante: o “Skip-A-Rack™” (Sim, trademark: há um “Featuring the Skip-A-Rack Timer” gravado na caixa original do cartucho, hehe).

Se o jogador consegue comer todas as células antes do timer exibido no canto inferior-esquerdo da tela terminar, a próxima fase é pulada completamente — e o  melhor: todos os pontos referentes à mesma são somados ao score. Sacada genial: estimula a velocidade do jogador e, ao mesmo tempo, pode virar sua própria ruína: uma morte e o timer desaparece naquela fase, sem chance para tentar de novo. Mas você não deixa de correr no próximo rack: afinal, quem nunca desejou pular completamente uma fase? Mais gratificante, impossível! :) Algo similar acontece nas fases de bônus, porém o benefício neste caso é, no mínimo, curioso: se o jogador completar o Challenge Rack antes do medidor “challenge” desaparecer, é exibida uma letra na tela. E só.

Estes mistérios eram uma delícia, cortesia da época do Atari. Uma letra e nada mais. Como naquele tempo nem sempre (ou quase nunca) tínhamos acesso aos manuais dos jogos, estes acontecimentos tinham um sabor diferente. “H”, é a primeira letra exibida ao completar o primeiro Challenge Rack com sucesso; 5 fases depois, mais uma de bônus… e, caso consiga novamente comer todos os quadradinhos antes do CHALLENGE! desaparecer por completo, mais uma letra: “E”. Um código? O que devo fazer, anotar? Sim… havia algum tipo de prêmio oferecido pela CBS, possivelmente um emblema de pano similar ao que a Activision costumava enviar aos jogadores que “destravavam certos achievements” em seus jogos.

A partir do sétimo rack, com as células duplas, o desafio dá um verdadeiro salto. Há momentos emocionantes com você no controle, concentrado, desviando-se das bolas de fogo e, ao mesmo tempo, buscando o trajeto mais otimizado. É um daqueles jogos nos quais seu cérebro, após algumas partidas, consegue responder tão rapidamente que nem você mesmo acredita. Tanto que a última jogadinha do dia é a que costuma deixar o high-score. Claro que as aleatoriedades dos tiros dos sentinelas podem sabotar seu bom desempenho numa jogada aquecida… bom, é a vida no Atari 2600.

Também, Solar Fox apresenta o tipo de mecânica onde o desempenho costuma ser maior para aqueles que fazem questão de utilizar a excelente alavanca original do Atari 2600, ainda que jogando no teclado (por emulação) há a sensação imediata de estar jogando o bom e velho Nibbles que acompanhava os antigos MS-DOS e, mais tarde, os celulares.

Com incríveis 8 KB, Solar Fox é um ilustre desconhecido que até obteve melhor êxito comercial no console em comparação com o desempenho do original de arcade onde, por sinal, é possível atirar, o grid é visível e há presença de inimigos no campo de jogo — justificando o poder de fogo de sua nave. Sábia decisão do programador que fez o port ao remover o tiro da versão do Atari 2600 pois, ao jogá-lo no MAME, tive a impressão de estar lidando com um jogo típico de nave: atirando, sua estratégia muda naturalmente para algo mais ofensivo, digamos assim. De qualquer maneira, provavelmente o tiro foi removido do Atari por limitação do hardware ou mesmo pela falta de um botão adicional no controle… nunca saberemos.

Para exibir até uma dezena de bolas de fogo em movimento na tela, foi usado a famosa técnica de flicker, aquela do Pac-Man, onde os sprites são desenhados rapidamente em locais diferentes e a fosforecência das TVs da época garantiam a persistência do objeto na tela. Tanto que capturas de tela por emulação nunca captam mais do que duas bolas de fogo… mas não se engane: são até uma dezena delas na tela em alguns momentos na versão do Atari!

Claro. Solar Fox é “mais um jogo de Atari”, console de acervo díspare e pouco confiável por conta da liberdade de desenvolvimento, próprio de um tempo anterior ao conceito “[insira nome de uma empresa de console aqui] Seal Of Quality”. Mas não encare o Atari 2600 apenas pela nostalgia: há, sim, títulos desconhecidos que merecem atenção especial do velho retrogamer que há em todos nós.

Para ilustrar: pequeno vídeo com a “sexy” propaganda americana
do Solar Fox e uma partidinha aquecida (risos) do Cosmonal,
capturada diretamente do Atari da Polyvox do SuperConsole :)

Pelo jeito, a nova geração de jogadores de telefones celulares já esqueceu Nibbles e, volta a pergunta — desta vez, para eles: “Have you played Atari today”? Os atuais desenvolvedores de jogos casuais que o digam…

SCORE

GAMEPLAY: Mais direto e interessante do que a versão original de arcade 5/5
GRÁFICOS: Deixa a desejar, para onde foram os 8 KB? :) 2/5
SOM: Efeitos sonoros demasiadamente tradicionais, ruído branco “basicão”  2/5
TRILHA SONORA: “Arpejo de programador” no start, F- neste quesito! (risos) 1/5
DIFICULDADE: Suas partidas costumam durar menos de 5 minutos… 4/5

DADOS

NOME: Solar Fox
PLATAFORMA: Atari 2600, Commodore 64 e Arcade
DISPONÍVEL EM: Cartucho/ROM
ANO: 1983
DESENVOLVEDORA: Midway
DISTRIBUIDORA: CBS Electronics

* * *

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19 Respostas

  1. Vector Tanks? BattleZone?

    Quem lembra de “Panzer” do TK.
    Era o jogo que vinha junto!

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  2. […] mais: Solar Fox (Atari 2600) « Cosmic Effect – Videogames Ontem e Hoje Esta entrada foi publicada em Sem categoria e marcada com a tag 2600), atari, cosmic, effect!, […]

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  3. Pelo o que vi no vídeo o jogo parece ser muito bom mesmo. Principalmente se jogar com um controlador manche (inclusive alguém sabe de um modelo sem fio?).

    Vou jogar para vê se eu consigo completar a palavra “HELIOS”. No cartaz não dizia quando a promoção acabava, quem sabe ela ainda é válida.

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  4. Cruz credo Eric, essas coincidências da vida são impressionantes. Na hora que você postou o vídeo no Youtube, eu tinha lido em algum livro sobre o Solar Fox e fui procurar na internet, e tava lá, Enviado por cosmonal em 13/01/2012. Foda d+.

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    • @Andrey Procurei no zxspectrum.net, é um tal de Panzadrome, Andrey? Muuuito bom, precursor de Granada do Mega Drive! :)

      @64gamers Tem sim Ighor, inclusive original da Atari, dá uma olhada na foto: http://bit.ly/yS1pos (sou louco por um destes, rs). E se conseguir completar a HELIOS avisa aí, é difícil pra caramba! :)

      @Guilherme Hahaha, que legal! Na hora certa então! :D E que livro era esse meu caro, fiquei curioso… talvez o Racing The Beam? Abração.

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      • Cara, ou era Os Mestres do Jogo, ou então a biografia do Steve Jobs, não sei bem qual é porque logo que li um, já comecei o outro. De qualquer maneira, recomendo os 2. Esse Racing the beam parece bem legal… já leu? Vou procurar me informar sobre ele.

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      • Opa Eric,
        Era Panzer mesmo. Muito parecido com o Battlezone. Esse vinha na fita cassete do TK. Era um editor de arte e o jogo “no lado B” rss
        Procurei e ainda nao encontrei qualquer video na net.
        Talvez tenha sido programado no Brasil.
        Valeu!

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        • @Andrey Ah, então é raridade-plus o Panzer! E esse editor de arte no “lado B” será que foi o seu primeiro Swift? :D

          @Guilherme Não li por inteiro Guilherme o Racing The Beam, mas para os interessados nas mágicas que o povo que programava para o Atari 2600 fazia, este é “O” livro! “Os Mestres do Jogo” não conhecia, sobre a Nintendo, legal, valeu a dica!

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          • Estava falando de manche para PC, mas e realmente incrível, um sonho de colecionador. Perdi meu Atari 2600 (e também um Mega Drive III) em uma enchente. Tinha Enduro Race e controles originais. Um dia irei adquiri outro, por enquanto só emulador mesmo.

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  5. Interessante Eric… nunca tinha ouvido falar desse jogo antes!
    Review muito bom pois agrega informação, acrescenta conhecimento ao leitor.

    Valeu!

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    • Valeu Euler!!! Rapaz, e o Solar Fox lembra os gráficos do Odyssey, não sei porque, acho que aquele sprite do tiro inimigo e tal, você iria gostar mesmo! :)

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  6. Eu não me lembro desse jogo, e olha que eu joguei bastante coisa no Atari.
    Pela descrição, parece muito interessante, vou ver se experimento o jogo muito em breve. Pena fazer isso no emulador, mas tudo bem.
    Post bem bacana, me deixou um bocado curioso.

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    • Legal Gamer Caduco! Pois é rapaz, ficou muita coisa mesmo no Atari, mesmo com tanto artigo sobre ele nestes tempos de Internet e tal. Muitos jogos parecem ser mais do mesmo, então passeando no emulador às vezes a gente “pula” um título interessante. Este Solar Fox mesmo, não é interessante à primeira vista; mas bastam algumas partidinhas e você nota que é hipnotizante… como qualquer bom jogo daquele tempo tinha de ser.

      Outra vantagem é que as partidas são rapidas, não tira muito o tempo do jogador.

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  7. Um jogo interessante do Atari desconhecido pra mim.
    Mais uma vez seu texto Eric foi digamos…inspirador,será que eu emulo ou não emulo esta belezinha?ha ha ha,não tem jeito eu sempre sou influenciado por suas dicas retrô Cosmonal não tem jeito.

    O que eu não gostei muito foi esta mecânica de movimentação que lembra pacman,entretanto parece ser bem mais “dura” para percorrer os pomtos na tela.

    A captura direta do console faz uma diferença incrível,além de garantir a fidelidade na hora de avaliar o jogo e produzir um post,nota 100 para o Cosmic Effect!

    Fiquei pensando nestes estilos ciclicos que você mencionou sobre a cultura POP e os games.
    Seriam estes estilos ciclos um fenômeno inerente a cultura gamer e a música ou é um sintoma da atual falta de criatividade e medo da inovação?ou pior,será que as formas de produção do gameplay já estão esgotadas?
    A minha dúvida Cosmonal é se estes “ciclos” são naturais ou é um fenomeno claro da exaustão da criatividade?

    É até irônico que as grandes produtoras de jogos estejam “bebendo” na fonte do Atari e da maravilhosa antiga Activision.Eu sempre digo,com um certo medo de ser taxado de velho nostálgico, que gráficos são um castelo de cartas,o que importa num game é a sua “inteligencia” é aquilo que prende o jogador à tela.Gosto muito de gráficos bonitos,principalmente em um FPS,mas eu tenho a consciencia que isto não é tudo,embora para alguns newplayers seja.

    Cosmonal seu lado retrô está cada vez melhor!!!

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    • Graaaande Dactar, you’re back! :)

      Sim, como você menciona, o jeitão do Solar Fox é mais “duro” do que Pac-Man, justamente por ser mais rápido. É um jogo “pura mecânica”, é seu cérebro movimentando em tempo real os scanlines do Atari, rs. O lance de pular as fases inteiras recebendo todos os seus pontos é o grande diferencial: estimula você a correr… e aí pode perder “tudo”.

      Pô, verdade sobre os gráficos: um perigoso castelo de cartas, que custa muito dinheiro. Qualquer jogo hoje para ser produzido custa uma nota, porque PRECISA impressionar neste quesito, como você falou. É praticamente uma exigência. Se essa bolha estourar… os indie estão atentos, só aguardando pra “entrar com força” e pegar a torcha…..

      Se essa bolha estourar, seu questionamento sobre os “ciclos” ou “exaustão” estará preses a ser respondido…

      Valeu Dactar pela soma dos insights!

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  8. Atrasado, mas estou aqui ^_^

    Cara, nunca tinha ouvido falar nesse jogo, que barato! Parece divertidão!

    O lance que você falou sobre não termos acesso ao manual é interessante mesmo, tudo era um mistério. Daí surgiam todas aquelas lendas sobre jogos da época, né?

    A pulada de fase quando você conclui dentro do tempo tem outro aspecto interessante: se você conclui a fase rápido, é porque já está fera no jogo. Fazendo o jogador pular de fase, evita-se que o jogo fique entediante no início para a turma que já tem prática. Tipo, depois que você já jogou Space Invaders mil vezes, ter que passar pelas primeiras fases super lentas outra vez é um saco. Pena que essa ideia não foi aproveitada em outros jogos.

    Li outro dia um post comentando esse lance de screenshots não pegarem elementos que piscam, tipo as sombras do Ninja Gaiden, e fiquei pensando… e se fizessem uma ferramenta que tirasse screenshots tipo em “modo burst”? Se fossem batidas bem rapidamente, de repente dava para sobrepor e passar uma ideia mais realista do que realmente estava na tela.

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    • “@Gagá
      Se fossem batidas bem rapidamente, de repente dava para sobrepor e passar uma ideia mais realista do que realmente estava na tela.”

      Poxa Gagá, que idéia boa… dá até vontade de mandar um email pra galera dos emuladores, acho que um recurso assim seria muito fácil de fazer.

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    • Valeu Gagá, rapaz, senti sua falta nesse post, sabia que você ia curtir alguns lances desse Solar Fox.

      Muito legal MESMO o que você falou sobre pular a fase, nem tinha olhado por esse ângulo. Se o cara já tá melhor, pular fases seria mais que um prêmio, adianta a jogatina, que é repetitiva claro. Pra terminar você deu simplesmente o melhor exemplo: Space Invaders, especialmente o do Atari 2600, que tinha literalmente centenas de níveis, sendo que os primeiros eram mole mole pros iniciados. Mas obrigatórios pra somatória de pontos.

      Realmente, em jogos puramente mecânicos como este e tantos outros antigos (e os que estão voltando por causa dos mobile), isso seria certamente um feature bem-vindo pra caramba.

      Putz, e o lance do “modo burst” hehe, é uma ótima idéia mesmo. Curioso que mesmo capturando vídeo do jogo a 60 frames (teoricamente iguais aos 60 Hz máximo da TV), o flicker “vai e volta”. Acho que deve ter a ver com o lance dos scanlines da TV CRT ou algo por aí, o screenshot por emulação vira um sorteio do sprite– mesmo nos videogames posteriores, acho que a técnica persistiu, acredito.

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  9. […] Um Pac-Man espacial. Mais um port de arcade bem-sucedido no console da Atari, o jogo até esconde uma palavra secreta que o jogador deveria descobrir vencendo as telas de bônus. Como colecionador, possuo alguns cartuchos ainda não jogados por aqui e este foi uma grata surpresa este ano. Ah, e se quiser saber qual a palavra secreta, leia nosso artigo sobre Solar Fox aqui… […]

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