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Cosmic Cast #36 – A Magia Do Atari 2600 – Terceira Parte

“Racing the Beam”. O famoso livro que tenta explicar o relacionamento entre a técnica e a expressão criativa permitida pelo Atari 2600. Certamente uma leitura recomendada a todos os grandes criadores de jogos atuais. Eles terminam a vida dos consoles sem conseguirem explorar todo o poder do hardware. Talvez não haja mais esta preocupação; por extrapolar em algo.

No Atari 2600, aconteceu exatamente o inverso: a máquina foi deixada para trás…

Amigos, esta é a última parte da nossa saga em homenagem aos 40 anos da Atari. O sentido da existência deste episódio reside nas lembranças que vocês compartilham conosco ao assistirem o vídeo. Nós, genuinamente,  agradecemos todo o feedback positivo e igualmente apaixonado de todos. Vocês fizeram, literalmente, esta “trilogia Atari” conosco.

Parados na frente da TV
vimos um castelo de cores que,
de repente, nos encheu
de sonhos, para sempre…

Cosmic Cast

Episódio #36: A Magia Do Atari 2600 – Terceira Parte

Cliquem em Gostei no YouTube!

Se não assistiu a primeira parte:

Cosmic Cast #36 – A Magia do Atari 2600 – Primeira Parte

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Super Stardust HD (PS3)

Asteroids da Atari é um grande clássico do final da década de 70 dos arcades, portado para o Atari 2600 em 1981. Uma nave no meio de um cinturão de asteroides com uma única missão: dizimá-los. A cada tiro certeiro, o asteroide “transformava-se” em dois menores. Sim, era o que eu pensava na época: que o asteroide duplicava-se. A simplicidade gráfica era tamanha que não havia sequer uma explosão – no alto dos 5 anos de idade, acreditei durante muito tempo que aqueles corpos celestes tinham um comportamento similar ao de uma praga (!).

Bom, o charme mesmo era sentir-se livre no controle da nave, pois em Asteroids era possível passear por toda a área da TV e atirar em todas as direções (diferente do “Padrão Megamania” da época). Isso era uma bela novidade. Assim como Space Invaders, ele também tinha uma “trilha sonora” de fundo, com duas notas musicais claramente inspiradas no tema de Tubarão. Só que conheci o clássico jogo de tiro algum tempo depois de tornar-me fanático pelos sofisticados Beamrider e Vanguard, dois favoritíssimos do gênero no Atari 2600. Asteroids, portanto, recebeu imediatamente status de patinho feio: extremamente repetitivo, era apenas um Spacewar! levemente atualizado.

Após os programadores descobrirem como realizar scroll de grandes imagens, os jogos com nave como protagonista ganharam cenários gigantescos representando universos, mundos. Xevious, de 1982, é o primeiro que vem a mente, com seu scroll vertical e seus cenários detalhados ao fundo. Não havia motivo para voltar atrás: os jogos de nave sem scroll eram como um peixe preso num aquário: mesmo capaz de nadar pelos sete mares, ele permanece preso a aquela pequena caixa com água. Pois nossa nave se libertou e os limites da carcaça do aparelho de TV se foram, para sempre. Para sempre? Bem…

Super Stardust HD revive este gênero que se confunde com a origem dos videogames e, sim, este é o Asteroids definitivo, quase 30 anos depois do original. Antes dele, havia experimentado Geometry Wars no Wii (disponível em diversas plataformas), outro conhecido clone de Asteroids da geração atual. É divertido e inova, mas… o fato dos elementos do jogo serem objetos geométricos minimalistas foram um “turn off” para mim. Faltava o lado inspirador, proporcionado pelo espaço sideral – a casa dos jogos de nave, ora! Geometry Wars é um daqueles jogos direto ao ponto: sua “nave” são 6 linhas que dá pra desenhar no Paint e você deve atirar e se desviar de vários vetores coloridos. É 100% mecânica.

Por outro lado, Super Stardust HD é o verdadeiro clássico atualizado: você controla uma bela nave que deve salvar 5 planetas que estão com asteroides em curso de colisão, enviados por um cara mau: o Professor Schaumund. É disso que estou falando! :)

Sua nave no centro da tela, um belo zoom traz o primeiro planeta e começa a chuva de pedras. No início, uma de cada vez para o jogador sentir-se poderoso. Com a liberdade do controle analógico, aproxime-se do primeiro asteroide e atire, mirando com o segundo analógico. Observe o asteroide se despedaçar em dezenas de pedaços menores. Seu instinto natural é o de continuar atirando, aproveitando que eles ainda estão reunidos, portanto tendo sucesso com a maior parte dos seus disparos. Aqui começam as novidades: são 3 armas diferentes, cada uma funcionando melhor em um dos 3 tipos de asteroides que encontraremos.

Mas não vamos lidar somente com pedregulhos celestes em SSHD: diversos inimigos curiosos juntam-se aos asteroides, invenções malignas do… Professor Schaumund! Durante as 25 ondas de ataque (5 para cada planeta), encontramos não mais do que 10 inimigos diferentes, além dos 3 tipos de asteroides. Frase clichê, mas aqui vai: A beleza está na mistura.

Um dos inimigos recorrentes é um pequeno objeto similar a um cubo de gelo. Surgem aos montes, formando um perímetro circular em torno de sua nave. O padrão de movimento deles é distanciar-se dos seus tiros, como se fossem dois imãs no lado de mesma polaridade, onde afastam-se um do outro. Ao distanciar-se, eles voltam a te perseguir; ao atirar, desviam, porém com a trajetória descrita anteriormente, mantendo essa relação “magnética” com sua nave. Outro inimigo curioso é uma espécie de centopéia. Cada tiro certeiro na cabeça deste inimigo, faz com que se aproxime de sua nave repentinamente. Nas últimas fases, surgem inimigos que também atiram. Somando estes tiros inimigos aos asteroides dilacerados em dezenas de pedaços, temos os momentos “asteroid-hell” de SSHD.

O grande desafio, portanto, é controlar a quantidade de asteroides. Como assim, controlar? Cada tiro certeiro faz com que o asteroide se desfaça em vários. Quanto maior o asteroide, maior será a quantidade de asteroides menores gerada a cada tiro. Como estamos falando da 7a geração dos videogames, espere dezenas ou até mais de 100 pedaços de rocha na tela, colidindo uns com os outros e mudando de direção a todo momento. Se o jogador não decidir corretamente o momento certo de atirar num asteroide “virgem”, se ele não criar espaço para dizimar um asteroide inteiro antes de ir ao próximo… o espaço se torna um labirinto de pedras, de verdade. Só que um labirinto… em movimento! Fica extremamente difícil, senão impossível manejar sua nave se o jogador se descuidar da “estratégia de destruição”.

Felizmente, reminiscente de Asteroids da Atari – na verdade, do Spacewar! – há o equivalente ao hyperspace, recurso que permitia sua nave viajar ao “hiper-espaço” reaparecendo em outro ponto da tela, aleatório. Ou seja: vai colidir, não tem mais jeito? Aciona o hyperspace em Asteroids. Em SSHD, sua nave ganhou um “hyperthrust”, permitindo viajar rapidamente para outro ponto próximo, no lugar do hyperspace. De quebra, sua nave fica invencível e ainda atinge os inimigos, agregando uma quarta “arma” à sua estratégia. Por fim, a famosa mega-bomba, que destroi quase tudo que está na tela. A bomba e os power-ups são itens coletados a partir de pedaços de asteroides “premiados”, juntamente com um eventual escudo e uma raríssima vida extra. Esta salada simples, mas eficiente, aliada aos gráficos que rodam a 60 quadros o tempo inteiro e a suavidade dos analógicos do dualshock do PlayStation 3: estamos lidando com o melhor clone de Asteroids da história…

…Que não é um jogo perfeito, somente por causa da sua trilha sonora. Uma coisa aprendemos ao longo dos anos: jogos de nave devem possuir ótimas trilhas sonoras. Por “ótima”, entenda-se “acima da média”. Afinal, vamos morrer muito e, por consequência, repetir muito o mesmo cenário, as mesmas fases. SSHD é terminado em 1 hora ou menos. Mas, como você já deve esperar, não irá pegar o controle pela primeira vez e 1 hora depois anotar no seu caderninho de jogos terminados: vamos ver alguns game over (sim, este tem game over!) até conseguirmos completar os 5 planetas no modo Arcade (há o “Planet Mode” onde você pode jogar cada planeta por vez). Diante de tanta repetição, nada como uma agradável e criativa BGM para esfriar nossa cabeça, não?

Pois em Super Stardust HD o que escutamos são aquelas genéricas músicas techno, especialmente sem sal neste jogo. Quem diria: o compositor é o finlandês Ari Pulkkinen famoso pelo tema de… Angry Birds. No joguinho do telefone moderninho, até que a música diverte e combina mesmo, além de tocar só na abertura e entre fases. Mas os cenários ultra-coloridos e a atmosfera sci-fi do Super Stardust demandam mais, muito mais do que temos aqui. Destaque (negativo) para o tema do boss: ele é tão lerdinho que sempre me sentia desanimado quando começava a batalha – e olha que os bosses, apesar de pouco variados, são bem divertidos – mas a música certamente não acompanha esta diversão. Curiosidade: ele também é compositor de Trine, outro jogaço finlandês que possue uma trilha sonora apagada, revisitado anteriormente neste blog que vos fala (e a OST recebeu comentários similares, juro que não é perseguição).

Aliás, graficamente… Super Stardust é muito bonito, mas muito mesmo. O planeta ao fundo tem relevo visível, atmosfera, nuvens, o brilho na lente do sol – tudo é muito charmoso e bem “plástico”. Há um grid simbolizando a posição onde ocorre o gameplay, que é “2D com um twist”. Este “twist” seria a possibilidade do jogador enxergar boa parte dos asteroides e demais elementos, mesmo quando eles estão bem pequenos quase do outro lado do planeta. A altíssima definição, no caso específico deste título, contribui realmente com o gameplay: ele é um dos pouquíssimos jogos da geração atual de consoles que é renderizado em 1920 x 1080 (1080p, portanto). Em momentos raros de calmaria, você pode manejar sua nave e, tranquilamente, observar boa parte do planeta: dá até para ver um power-up beeem pequeno, quase do outro lado do planeta, escondido entre os vários pedaços de pedras – momentos após o jogador abrir caminho numa chuva de asteroides. É comum sobrar um item que você não viu em meio às explosões.

O jogo que popularizou o conceito de um “high-score” foi Space Invaders do arcade. Seu irmãozinho Super Stardust, naturalmente, colocou bastante energia em tudo que se refere à pontuação. Até a próprio valor da pontuação na tela é empolgante: ele aumenta por unidade, como um contador numérico em altíssima velocidade – praticamente não para nunca! Tudo vale ponto, cada pedacinho de asteróide até terminar a fase rapidamente. Quanto mais tempo o jogador permanece vivo, mais o multiplicador de pontuação aumenta. Perdeu uma vida, uma vidinha sequer? O multiplicador volta a x1! É terrível, frustrante mesmo. Mas essa frustração fica guardada para depois que o jogador já domina bem SSHD, já venceu os 5 planetas no normal – até terminar pela primeira vez, você ainda não tem “tempo” para se preocupar com isso.

Falando em nível de dificuldade… é onde reside a cereja do bolo hardcore/arcade: o jogo apresenta somente os modos easy e normal, mas SSHD esconde mais 7 níveis extras! Porém, só é possível jogar no hard após vencer o modo arcade no normal. Mas não espere por um unlock, meu caro amigo: toda vez que desejar jogar no hard, precisará passar um loop pelo normal. Após o final, o jogo recomeça no hard mantendo apenas sua pontuação obtida, no bom e velho estilo arcade. Depois do hard, temos: Elite, Hardcore, Suicidal, Beyond Suicidal, Suicidal Overdrive, e – finalmente – o sugestivo modo de dificuldade “Officially Impossible”. Com exceção do hard, só vi estes níveis em vídeo… o último é literalmente impossível: o dono do high-score da PSN não conseguiu terminá-lo no vídeo que colocou no youtube.

Stardust (1993) e Super Stardust (1996) são originais do Amiga. Houveram ports para MS-DOS, porém não obtiveram sucesso algum no PC – o que fez o jogo ficar adormecido para o grande público. Este remake exclusivo do PS3 (e PSP), publicado pela própria Sony, foi considerado o melhor título da PSN no ano do seu lançamento (2007). Com um forte appeal para o jogador old-school que possui o PlayStation atual, é prato cheio para quem gosta de um desafio equilibrado; ao mesmo tempo, oferece a qualidade de “casual” pois suas partidas são rápidas e compensadoras. As músicas não ajudam, mas até que não importa muito em meio a quantidade de explosões de cores e partículas que é o Super Stardust HD.

Bônus: ao explodir um boss e suas dezenas de partículas voarem para todo lado, aproxime-se bem da TV e presenciará o melhor efeito tridimensional desde o Master System… mesmo sem os óculos. Caso você seja um felizardo dono de uma TV 3D, este título suporta as três dimensões com óculos, em 720p e, de acordo com relatos, segurando os 60 quadros. No caso específico deste título, até valeria a pena usar um óculos 3D novamente para jogar videogame :)

SCORE

GAMEPLAY: Controle suave e preciso da nave, dualshock aqui é a perfeição 5/5
GRÁFICOS: Tecnicamente e artisticamente equilibrado, 3D, 1080p, tudo de bom 5/5
SOM: Melhor parte do áudio do título, sons old-school misturados aos modernos 4/5
TRILHA SONORA: Decepciona, o jogo é inspirador, carece de uma trilha marcante 1/5
DIFICULDADE: Granular, o jogador mal percebe que ela aumenta (e muito) 4/5

DADOS

NOME: Super Stardust HD
PLATAFORMA: PlayStation 3 e PSP
DISPONÍVEL EM: PSN
ANO: 2007
DESENVOLVEDORA: Housemarque
DISTRIBUIDORA: Sony Computer Entertainment

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O Prazer De Colecionar Videogames

Eis o objeto mais caro do mundo, levando em conta o peso: 0,03 gramas e valor estimado em 14 milhões de dólares. O que é? Um selo sueco de 1855 sem nenhum valor funcional.

Quando alguém fala sobre o hobby de colecionar, qual objeto surge em sua mente em primeiro lugar… seriam selos? Na minha também, selos. Filatelia é o nome dado ao hobby de estudar e/ou colecionar selos postais e alguns itens relacionados. Talvez você nunca tenha colecionado selos, assim como eu – antes de colecionar videogames e cartuchos, meu único contato com algum tipo de colecionismo teria sido através de álbuns de figurinhas dos campeonatos brasileiros dos anos 80: coisa passageira e comercial, como brincar com ioiô da Coca-Cola – não conta.

Qual o impulso, o que movimenta o mais popular passatempo da humanidade (sim, há estimativas de 20 milhões de colecionadores de selos, só nos EUA) a transformar um pequeno pedaço de papel com uma ilustração em um objeto de desejo com valores que já ultrapassaram sete milhões de dólares? Originalmente ele foi vendido oficialmente por míseros centavos: Não importa o país de origem, selos são quase de graça, como sabemos. O que ocorre com aquela tira de papel, com o passar dos anos? Ela se transforma em ouro? Em plutônio? Pelo contrário: fisicamente, deteriora-se – e nada mais.

Poderíamos estar lidando com loucos, insanos? As centenas de milhões de colecionadores de selos postais espalhados pelo mundo, há séculos… seriam exemplos de pessoas em falta com suas faculdades mentais? Veja bem: gastar 14 milhões de dólares em um pedaço de papel minúsculo de 1855 feito por um artista qualquer na Suécia ou simplesmente mandar um email? Ah: o selo caríssimo nem iria servir ao seu propósito original, ainda que você fosse um morador da Suécia.

Então, para você e para mim, não há dúvidas: não vamos pagar uma fortuna descabida por um selo que sequer me permite enviar uma carta para alguém; vou usar a Internet ou, se estiver no clima de uma comunicação old-school (risos), basta comprar uma cartela de selos brasileiros por 5 reais. Guardarei os milhões de dólares para ser um milionário, ou algo do gênero. Porém, alguns milhares de colecionadores sérios espalhados pelo mundo não teriam dúvida: disputariam cada lance desse leilão milionário até o final, se tivessem a oportunidade.

Amigos, o texto ficará um pouco pessoal agora, mas logo, logo, voltaremos à programação normal. Prometo que não fugirei do assunto, ainda que vocês certamente terão esta impressão. Pelo menos, estarei falando de alguns ótimos jogos… de qualquer maneira, será decisivo para tentar mostrar as diversas facetas do hobby de colecionar videogames.

Starflight e Bioforge. Meu jogo favorito de Mega Drive (que é O console favorito) seguido do meu título preferido de PC, de todos os tempos. Eu gostava tanto de Starflight que ele foi o único cartucho que guardei da época do Mega Drive. Sabe onde? Em uma de minhas gavetas de roupas. Após finalmente vender o Mega Drive, em 1994, coloquei-o na gaveta do meu armário, bem embalado com várias “voltas” de plástico. Ele permaneceu lá por uma década inteira, nunca atrapalhou – é loose (sem caixa), afinal. Porque fiz isso? Um prazer que somente eu sei descrever.

E irei compartilhá-lo rapidamente para vocês, amigos:  por volta dos meus 13 anos de idade, pelos idos de 1991, joguei Starflight como se não houvesse amanhã. Literalmente. Foi o primeiro jogo que lembro ter me feito ver o sol nascer – e não somente uma vez. Joguei-o muitas vezes até o final e, na verdade, após a primeira partida completa, voltei a jogar apenas para explorar o espaço. Era o meu MMO particular. Sem Internet e sem walkthrus em revistas de videogame, Starflight sempre foi um mistério para mim. Tanto que até evito ler sobre ele na Internet, até hoje.

Neste jogo verdadeiramente épico para quem joga, você é o comandante da tripulação de uma espaçonave num futuro muito distante (4000 pra frente…) e recebe várias missões em sua estação espacial, distante anos-luz da Terra. Viajando no espaço, você encontra outras naves – e pode conversar com a tripulação, no momento adventure do jogo. É exibida na “tela” de sua nave a transmissão visual do alienígena com o qual você está papeando. Mesmo com as raças que falam línguas diferentes, é possível visualizá-los enquanto tenta uma conversa (ainda que o papo seja em números binários, como acontece com uma certa “raça”).

Porém, um alienígena especial, conhecido como “Uhlek”, nunca aceita conversar, muito menos aparecer na sua tela. Eles posam, para o jogador, como um uma espécie de “chefão”, ou pelo menos um inimigo muito difícil.  Você nunca os vê — claro que não vou revelar o significado disso no “grande esquema das coisas” do universo dessa ROM de 8 megabit (nota: há relatos de que ele teria sido o primeiro cartucho de 8 Mb do Mega Drive).

Na verdade, Starflight, que mistura RPG, adventure, shmup 2D e exploração (tudo isso mesmo e bem dosado) fez parte do meu imaginário de uma maneira tão arrebatadora, que até deixei de locar/relocar os VHS de Star Wars por um tempo: naquele momento, senti que os videogames iriam substituir o cinema no meu ranking pessoal de hobbies para sempre.

Nunca vi um Uhlek, somente suas naves. Não sei com o que se parecem. Por vezes, eu os imaginava. Se há um sprite dele perdido na ROM ou talvez na versão em floppy para PC, não quero saber. Por favor, não coloque o link para a imagem nos comentários. Tenho medo deles, não sei se suportaria vê-los. Prefiro deixar assim: e quando carregar meu savegame com quase 20 anos poder continuar minha própria aventura, em busca de ruínas desconhecidas em planetas distantes, fugindo sempre dos Uhlek.

Bioforge. Um thriller sci-fi com terror em forma de jogo eletrônico. É a melhor definição, e não foi cunhada pelo departamento de marketing da Electronic Arts. Quem está falando isso é um mero fã apaixonado pelo game. Não irei discorrer sobre o título como fiz com o Starflight, importa apenas dizer que guardo uma relação semelhante de “amor” ao jogo. Em 1995, comprei-o pirata. Nessa época, baixávamos jogos em BBS (sistemas online baseados em texto, antes da Internet) e jogos em CD-ROM eram simplesmente impossíveis de disponibilizar online – legalmente ou não. Transmitir 600 MB custaria o preço de um PC novo na conta telefônica no final do mês.

Li numa revista importada sobre ele e parti para comprá-lo; peguei uma cópia ilegal em lojas de São Paulo que anunciavam na revista Micro Sistemas. Após jogar, fiquei tão louco por ele que fiz uma segunda cópia numa mídia de maior qualidade  (que me custou 8 reais – um CD virgem Mitsui Gold, “o melhor do mundo”) e uma capinha personalizada, a qual compartilho com vocês nas fotos tiradas especialmente para este post. Quinze anos mais tarde, em 2010, adquiri a versão em caixa que saiu na Inglaterra, com um extenso manual que me propiciou uma fabulosa leitura.

Google Imagens? Nada, aqueles planetinhas que inseri na capa são de um arquivo PIC baixado num BBS. PIC era um formato comum na época do MS-DOS, algo como o JPG de hoje. A “arte” (risos) foi feita no CorelDRAW 4.0 e a impressão numa HP 692 colorida (!).

Final Fantasy VII. Possuo a versão original para PC, ou seja, do único port  do original do PlayStation e que dispensa apresentações, sétimo jogo da franquia de RPG carro-chefe da Square. Nunca joguei Final Fantasy VII. Aliás, praticamente não joguei Final Fantasy nenhum – meu “recorde” são 3 horas de Final Fantasy XII. Nada contra, apenas circunstancialmente nunca joguei nenhum deles. Mas, tenho esta versão em minha coleção. Completa, a embalagem muito bonita, manual, todos os encartes e os 4 CDs em absolutamente perfeito estado.

Gosto de saber que há uma penca de jogos maravilhosos ainda desconhecidos por mim. E alguns deles estão dentro do meu quarto! :)

Comprei pela oportunidade. Comprei por outro hobby, que não é o de jogar videogame. É como filatelia e colecionador de selos postais: o filatelista nem sempre coleciona, ele estuda através de museus, por exemplo; este seria o jogador de videogame que conhece uma vasta quantidade de jogos, através do uso da emulação, por exemplo.

O colecionador de cartuchos e consoles é o colecionador de selos propriamente dito. Porém, na maioria das vezes, o filatelista também é colecionador de selos. Este seria o colecionador que efetivamente joga os jogos que compra — é o meu caso, por exemplo.

Final Fantasy VII na minha prateleira, juntamente com dezenas de jogos que nunca joguei mas comprei desde que comecei a colecionar em 2005, são meus equivalentes aos selos postais do filatelista. Gosto de acordar, e olhar para as prateleiras, para a arte da capa. Jogos originais de Atari, creio que todos aqui reconhecem a beleza que certos cartuchos apresentavam no label e/ou na embalagem.

Quando criança, era um incrível estímulo para conhecer o game na tela da TV. Hoje, reconheço o valor artístico daquelas imagens. Para mim e para muitos colecionadores, é a mesma sensação prazerosa de admirar um belo quadro. Não preciso nem colocar o cartucho no videogame, e já estou aproveitando, sabe? É uma outra forma de entretenimento – mas uma legítima. Nunca joguei Final Fantasy; mas essa caixa costuma ficar na frente da prateleira.

Imagina essa ilustração adornando o seu quarto. Isso é só um exemplo: centenas de cartuchos originais do Atari nos brindavam com estes “gráficos” incríveis na caixa.

Starflight e Bioforge, como contei para vocês, são jogos com muito significado para mim. Daí, olhar para a caixa, para o cartucho, pegar o manual pra ler – tudo faz parte de um gostoso ritual nostálgico. Já Final Fantasy VII, ou todos os jogos que tenho e ainda não joguei, são mistérios para mim; além do puro e simples prazer de colecionar o item per si, diferentemente dos selos, ganho a função adicional de representarem uma aventura ainda não percorrida. Basta colocar o cartucho no console que ele funciona e cumpre seu propósito inicial!

Mas, parte do prazer do hobby de colecionar não tem a ver diretamente com os videogames. Garimpar é um deles. Passar horas em sites de leilão, pesquisando, rolando barra de rolagem por horas seguidas. Já aconteceu de encontrar um cartucho que eu queria muito assim, rolando o scroll meio que desligado… TUM! Aparece lá o cara vendendo Cybercop do Mega Drive, baratinho. A palavra “cybercop” não estava digitada corretamente pelo vendedor. Talvez eu nunca encontrasse, no estado e preço que encontrei. Foi um completo acidente.

Pois é, coleção de videogames está intimamente ligada com a Internet. A maioria dos colecionadores começaram o hobby por conta dos sites de leilão e do fato de conhecer outras pessoas com os mesmos interesses na Internet. Pouquíssimos colecionam desde o tempo dos próprios consoles. Crianças não colecionam brinquedos, mas muitos adultos se tornam colecionadores de brinquedos.

Com os jogos eletrônicos, muitos criaram interesse após a popularização da emulação: decidiram reviver a experiência completa, principalmente anos atrás quando a emulação da maioria dos consoles não era satisfatória. Fora a experiência tátil proporcionada somente pelo joystick original: há quem se importe com isso.

O simpático Matt Barton, é um colecionador, historiador (de videogames) e apresentador de uma das melhores séries sobre jogos que você já viu, seja na TV, na Internet ou onde for: a série “Matt Chat”.

Tem mais: mudar a arrumação da prateleira, mudar a aparência, a apresentação da coleção. “Agora quero os cartuchos de Master System na frente”. Aproveita pra passar um paninho, cuidar dos itens. Especialmente os consoles, que requerem mais cuidados. Em geral, ao comprá-los, a gente os revisa, abre, limpa, aplica spray anti-corrosivo. Cartuchos recebem uma aplicação de spray protetor nos contatos. Isso tudo ajuda a mantê-los por mais tempo – cuidar é parte do prazer de colecionar.

E não acaba aí: catalogar. Sim, hoje em dia há até sistemas específicos para colecionadores de jogos eletrônicos e consoles de videogame. Minha coleção é pequena ainda, mas já senti falta de popular o banco de dados do programa que peguei para este fim – já fiz compra repetida, sem querer, pois não lembrava se tinha ou não determinado cartucho.

A maioria dos colecionadores hardcore de videogame não possuem blogs. Eles, necessariamente, não escrevem sobre jogos, como nós fazemos por aqui. Em geral, reúnem-se em listas de discussão e fóruns e discutem as etapas que precedem a aquisição dos jogos (não que nunca falem dos jogos em si, claro; não conheço um colecionador de videogame que não seja apaixonado). Algumas listas são antigas e populares, como a Canal 3. Participo há muitos anos desta, e lá encontrei dezenas de tipos de colecionadores de videogame diferentes.

Tem o cara que coleciona de tudo e um dia vende tudo porque está prestes a casar; o que só coleciona Odyssey; ou só Atari 2600. Tem o sujeito que vende e compra de tudo; tem gente até vivendo disso – de vender cartuchos, consoles e acessórios de videogames antigos.  Tem gente que só coleciona itens da Nintendo lançados antes de Mario Bros. Ah, esse tem até blog (gringo), olha só: http://blog.beforemario.com – isso mesmo, o blog se chama “Before Mario” :) Foi o foco que ele definiu, é assim que ele se diverte. Ah: se você curte Nintendo, não deixa de visitar. Tem coisa que você só vê nesse blog.

O colecionador gringo Johnny Millenium é o segundo maior fã de Phantasy Star do sistema Algol. Piadinha obrigatória: o primeiro é brasileiro e se chama…

Outro colecionador que tem uma maravilhosa coleção – esse brasileiro – é o Antonio Borba. Ele é o maior colecionador de Atari do Brasil – devidamente reconhecido e premiado. Realmente recomendo que olhem com carinho o site dele: é obra de apaixonado, dá gosto de ver. Se você não conhece sua coleção e também é um fã do Atari, faça um favor a si mesmo: não deixe de ver isso aqui http://tombrazil.magicwebdesign.com.br/

É um pedaço da história gamística, retratada através de sua coleção. Não gosto de encher posts com links, mas se você não visitar o site, escuta pelo menos ele falando sobre sua paixão por colecionar Atari. Repara nos olhos do cara, brilhando. O vídeo é curto, mas… não importa se você coleciona ou não, se não se identificar com a emoção do Tom Borba neste vídeo, pergunte novamente se você ama os videogames mesmo :P

O colecionador de Atari e dos itens antigos da Nintendo são bons exemplos de colecionadores focados, com escopo bem definido. Assim como tem gente que coleciona “somente rótulos de leite em garrafa da marca Sussex”, muitos colecionadores de videogame também costumam fazer o mesmo, focando sua coleção. Você coleciona o que quiser, como quiser. Ou não. Para uns, o cheiro do interior de um carro novo é o máximo; para outros, o cheiro do plástico de um cartucho de Atari ou de um alternativo perebento de Mega Drive é o que há!

Do CD piratinha do Bioforge que tem muito valor para mim e nenhum para ninguém mais, até o quarto cartucho-protótipo da série Swordquest (o AirWorld) do Atari 2600 que é capaz de valer mais que aquele selo sueco (se um dia aparecer),  o ato de colecionar videogames é um hobby saudável e livre. Se você um dia aparecer em minha casa e for um jogador de videogame, é possível que eu faça a brincadeira de recebê-lo com uma caixa de um jogo antigo ao abrir a porta. Ora: preciso de muitos títulos físicos na minha prateleira para fazer isso com eficiência, afinal, as pessoas têm gostos diferentes!

Tem gente que compra certos títulos e os mantém lacrados, para vender no futuro por altos preços. Está valendo: ele investiu na compra, não usou, e não abriu. Armazenou e cuidou durante anos. Agora, ele quer o retorno pelo seu investimento. Tem alguém que paga e reconhece valor no que aquele colecionador fez? Sim, tem, e em comum acordo. Ninguém coloca uma faca no seu pescoço e diz: “compre este Super Mario World lacrado AGORA!!!”.

Como citei, 99% dos colecionadores de videogame existem graças à Internet – é difícil forçar alguém através de um site de leilão. Claro que, assim como em qualquer coisa, há os mau-elementos. Dizem que tem o cara que falsifica jogos antigos lacrados, por exemplo. Se itens lacrados são o que lhe excita, tenha cuidado.

O famoso colecionador James Rolfe (AVGN) lembra: “Swordquest AirWorld do Atari é exatamente isto mesmo… ar”

Colecionar é um ato completamente humano, algo cosmopolita, que tem a ver com a essência do mundo civilizado. Diria mais: é mais uma prova do nosso poder (no bom sentido da palavra), não só sobre os demais animais, como sobre nós mesmos. Afinal, conseguir convencer milhares de pessoas que um papel de 0,03 gramas pode valer 14 milhões de dólares… não ache que os convencidos deste valor são idiotas; é sempre bom respeitarmos os valores que o outro cultiva. Imagina só: se  ele conseguiu 14 milhões para gastar em um selo postal, é difícil não pensar no cara como alguém que não é inteligente, correto?

O homem é um ser refinado. Ele guarda uma bebida por décadas para que a mesma seja agraciada com uma nova, quase imperceptível, nuance no sabor. Escolhe um momento importante, com alguém que admira, para abrir aquela garrafa especial. Especial? Não há diferenças físicas gritantes em um vinho envelhecido que justifiquem tanto aumento de valor. Mas, a trajetória que aquela garrafa precisa seguir – bom armazenamento, cuidados com temperatura, etc., tudo isso pode representar um valioso aprendizado para quem faz, além de dar prazer. É este valor intangível que se agrega ao objeto. Como falei… isso é “coisa” de ser humano.

Sabia que existe o cartucho de Hang-On + Safari Hunt? Será que o joguinho do labirinto também está incluso? ;-)

Colecionar videogames pode propiciar momentos deliciosos, como o de tomar um bom vinho — single player ou acompanhado por um grande amigo :) Quem atribui o valor a cada item de sua coleção de videogames é, somente, você mesmo. Aproveite. Ou se o hobby não lhe agradar, não há problema algum: venda ou doe para quem aceitar. Você estará fazendo um grande favor dando o destino certo para quem valoriza aquele cartucho que você se satisfaz emulando, por exemplo. Pois, para quem coleciona videogames, o importante nem sempre é o destino: e, sim, a aventura até ele…

Referências:
http://www.nytimes.com/1996/12/15/business/delivery-isn-t-guaranteed-but-stamps-are-turning-profits.html?pagewanted=all

http://en.wikipedia.org/wiki/Philately

http://en.wikipedia.org/wiki/Collecting

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