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TheBoss Extra 015 Parte 2 – Mesa Redonda Gamística

A importância e o valor (real) da pirataria de cartuchos de videogame e precisamos mesmo dos tablets para jogar novidades?

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Carnaval 2013 – Videoclipes E Músicas Toscos De Games No Brasil

É carnaval, época de músicas mal compostas martelando nos nossos ouvidos (com frequência maior do que o normal) e erotismo exacerbado.

Irei ajudá-los a dar uma fugidinha disso apresentando-lhes minha lista de videoclipes e músicas de qualidade ímpar com temática gamística, apelidada carinhosamente de Video Lame Music do Brasil.

As canções e videoclipes a seguir não contêm vergonha alheia nem apelo sexual. Confira comigo no Cosmic Effect!
Parabéns, você achou um easter egg inútil!
Comecemos pelo jogo do carrinho branco do Super Nintendo (SNES), Top Gear. Segundo a internetz, Matthew Bellamy, da banda britânica Muse, “inspirou-se” nas músicas do jogo para compor Bliss.

No Brasil, vários compositores copiaram na caradura o magnífico tema da primeira corrida (Las Vegas). A alta popularidade do jogo no país contribuiu para essa 10grassa isso acontecer.

Edredom – Forró Sacode

O vídeo começa com um apelo escancarado à nostalgia, porém as memórias do cantor/rapaz são nebulosas. Aparecem dois garotos jogando Top Gear no Playstation 2 (PS2), ou seja, os organizadores do clipe não se deram ao trabalho de procurar dois controles de SNES.

Carnaval 2013 - Top Guia

Em vez disso, fizeram uma animaçãozinha malfeita de carro. Essas são as únicas referências visuais ao jogo, que terminam aos 0:44. Depois, só tem edredom, pegação e sucessão de verbos terminados em “ar” ao ritmo de Las Vegas.

Top Gear (Super Nintendo) – Total Mix

Este tecnobrega/tecnomelody/Tecnódromo é um clássico que provavelmente muitos de vocês já devem ter escutado. Apesar do seu título ser bem completo, não há nenhuma menção ao jogo na letra.

Por outro lado, não faltam referências ao nome da banda e outras informações indispensáveis. O destaque fica para a licença poética “as perninha”, feita pra rimar com “bundinha” e “cinturinha”. Se houvesse uma pista em Belém-PA no Top Gear o tema certamente seria esse.

Não gostou? Reclame pro Marquinhos de Fortaleza, basta ligar.

Top Gear (Praia do Meio) – Forró Estourado

Mais um forró e mais uma licença poética (no refrão): “Top Guia” pra rimar com “dia” e “contagia”. Só pra contrariar, a letra não tem nada haver a ver com o jogo, há várias informações de suma importância e a música é uma obra-prima.

Pelo menos desta vez não utilizaram a melodia da Las Vegas como base para o vocal.

Come-Come – Banda Beija-Flor e DJ Ninja

ComeCome! é o nome brasileiro do jogo de Odyssey (na verdade Odyssey²; qualquer semelhança com o personagem homônimo da Vila Sésamo seria mera coincidência?) e por isso o Pac-Man (do Atari 2600 principalmente) ficou conhecido como Come-Come por aqui.

Carnaval 2013 - Come-Come Separados No Nascimento

Um belo dia, tiveram a brilhante ideia de fazer uma música intitulada Come-Come com uma metáfora nunca antes pensada neste universo (e neste país também): a associação do verbo comer com ato sexual. Uma salva de palmas para os responsáveis pela coragem em publicar o videoclipe!

Imitações do jingle de abertura e de morte do Pac-Man de arcade (fliperama) tocam mais de uma vez durante a canção.

Os jogos mostrados no vídeo são um espetáculo à parte: Pac-Man em flash com o cursor do mouse na tela, idem para o Ultimate Mortal Kombat 3 (tela de seleção chupada do SNES), tela estática de menus do Street Fighter II: The World Warrior do SNES (certamente não acharam um flash dele) e um vídeo de algum Winning Eleven/Pro Evolution Soccer (o que um jogo moderno faz aqui?).

Pra melhorar, as imagens de todos os jogos (exceto a de Street Fighter) aparecem cortadas nos telões do fantástico mundo do croma key.

Analisando a seleção de jogos (sem levar em conta o vídeo), chutaria que o console da letra seria o SNES ou Mega Drive (Master System ou NES como próximas opções). Já no vídeo, seria mais razoável eles estarem jogando num computador com controles de PS2.

Carnaval 2013 - Pac-Man WTF

A pergunta que não quer calar é: como se joga Pac-Man de dois jogadores? No âmbito do videoclipe, não é possível. Desconheço algum jogo da série até a era de 16-bit em que seja possível um jogador comer o outro, isso certamente é uma licença poética para propiciar um duplo sentido no videoclipe.
É preciso limpar sua tela, ela está suja bem aqui.
Saindo de seu escopo, existem ports de Ms. Pac-Man para NES/Master/Mega/SNES nos quais é possível jogar com dois jogadores simultâneos (o player 2 controla o Pac-Man), tanto cooperativamente quanto competitivamente. Há também um jogo oficial, Pac-Man Vs., no qual um jogador controla o Pac-Man e de um a três outros jogadores controlam os fantasmas.

Além do mais, para celebrar o 30º aniversário da bola amarela comilona foi lançado o Pac-Man Battle Royale – jogo competitivo de um a quatro jogadores – e o Google fez um joguinho, que tem modo cooperativo, substituindo o logo na página principal da empresa.

Pena que a música não se chama “Come-Come Beija-Flor”.

Seria uma paranomásia notável.

Pac Man – Na Varanda

Primeiramente, o título da música está escrito errado. Segundamente Ela começa com uma cópia do jingle de abertura do Pac-Man do arcade (aguda o bastante para causar danos cerebrais) e segue com a mesma metáfora originalíssima da canção anterior, que foi certamente mimeografada xerocada dela (outra salva de palmas).

A melodia do refrão foi provavelmente chupinhada da guitarra da Vira-Vira dos Mamonas Assassinas. Ainda sobre o refrão, não me lembro do personagem “mamãe” nem “papai” no jogo.

No final, há outra releitura do jingle de abertura, seguida do jingle de morte original do Pac-Man de arcade. Enfim, coisa de gênio.

Pac Man – Lucas Lucco

Novamente há um engano no nome da música. Em seu início toca o jingle original de abertura do Pac-Man de arcade e há várias imitações dos efeitos sonoros do jogo em seu decorrer.

Mais uma vez empregou-se a criativa metáfora utilizada nas duas músicas anteriores (mais palmas). Ademais, a letra também referencia o Bomberman, cuja metáfora deixo pra vocês interpretarem.

Por fim, esse sertanejo universitário é tão bom quanto o port do Pac-Man para Atari 2600 e quanto a paródia que fiz logo abaixo:

Eu tô que nem Aretuza
Que nem a Aretuza
(…)

Funk do Mortal Kombat – Funk You Bit

Finalmente fizeram um videoclipe sobre jogos de Super Nintendo utilizando seus controles e cartuchos! Aleluia! A dupla usou partes do superestimado tema de Mortal Kombat, que nunca tocou em um jogo da série, para fazer um funk escrachado e de baixo escalão sobre seus personagens.

Além disso, usaram vídeos do YouTube, vozes, imagens e animações dos jogos da série MK – os quais não são necessariamente retiradas do SNES (licença poética em ação).

Carnaval 2013 - Virei Macho E Mortal Kombat

Destaque para o refrão do Sub-Zero, para o trecho sobre o Kano (que não faz o menor sentido), o Goro (sem sentido também), a Sheeva e o Striker. Eles foram no Programa Eliana e apresentaram uma versão censurada com direito a “subzeretes”, tão boa quanto aqueles filmes feitos pra TV.

Censuraram até “bolas”. Deve ser por isso que Dragon Ball não passa mais no SBT (claque). Ah, e “Funk You Bit” é uma paranomásia deveras interessante.

Swing Baiano – Hit do Hadouken

Meses antes da Dança do Street Fighter viralizar, este pagode moleque repercutiu timidamente na interwebz. A introdução meio mística (com direito a um grito de Hadouken com eco) faz lembrar do tema de Ryu & Ken do anime Street Fighter II V.

Basicamente, a letra fala de jogatinas infantis de Street Fighter reunindo uma galerinha do barulho soltando altos Hadoukens e Shoryukens.

Por falar na letra, ela é bem trabalhada, nem dá pra notar as repetições ad infinitum. Durante a música, escutam-se os gritos de Hadouken e Shoryuken retirados de algum jogo.

Finalmente, esta canção lembra da Savamu do Libera o Badaró.

Dança do Street Fighter – Mantena e JP

Chegamos ao famigerado hit do verão de 2011, cujo vídeo original foi apagado do YouTube por pedido da Capcom. O videoclipe começa com imagens do jogo Street Fighter IV e vários sons e vozes do Street Fighter II, recursos repetidos ao longo do vídeo.

Logo após aparece a dupla trajada de Ryu e Ken com o estágio do Ryu de Street Fighter II como plano de fundo. As rimas “site”/”Street Fight” (arredondado de “Street Fighter”) e “ibope”/”Cybercop” – (Tiger) Uppercut – são tão forçadas quanto a rima “sacrifício”/”orifício”.

Outros nomes populares de golpes aparecem na letra: Roliúgui (Shoryuken) e Alec Fu (Sonic Boom). Por falar nisso, a dupla faz uns golpes completamente aleatórios em relação à música, rolam até uns Hadoukens.

Carnaval 2013 - SF Homenagem Irônica

Para delírio da galera, saíram posteriormente dois clipes alternativos: o primeiro parece a matriz do original (não tem as partes de SF IV para causar menos problemas com a Capcom; reparem a superedição em 0:14) e o segundo tem um ambiente branco e um elenco de apoio.

Na introdução de ambos há referência aos momentos que antecedem o início dos rounds no jogo, no qual os lutadores ficam se encarando fixos em suas posições.

A seguir, uma breve análise dos cosplayers do último videoclipe: Ryu e Ken parecidíssimos com quimonos legais como no outro clipe (agora com luvas), Chun-Li com o branco dos olhos parecido, Sagat sem tapa olho e Guile quase igual ao do filme hollywoodiano.

Por fim, a canção me lembra o “Hit do Hadouken”, talvez porque essas músicas são todas parecidas mesmo.

Dança do Mortal Kombat (VS Mortal Kombat) – Mantena e JP

Agora falarei sobre o crossover do século. Capcom vs. Street Chaves? Sonic & Mega Man? Battletoads & Teenage Mutant Ninja Turtles & Golden Axe & Double Dragon & Final Fight & Streets of Rage? Não, Mortal Kombat vs. Street Fighter.

Logo no começo do vídeo aparecem trechos da abertura de Street Fighter IV, trechos de Mortal Kombat (2011), vozes e efeitos sonoros de SF e MK e um cameo de um lutador de UFC (?) – há uma versão alternativa do clipe sem os trechos dos jogos. Aparecem, então, Sub-Zero com roupa inspirada na do MK (2011) e Ken com cabelo arrumado, diferente dos outros vídeos.

Existem dois ambientes: um é a “Soul Chamber” de MK3/UMK3/MKT e o outro é branco com músicos tocando ao fundo. Diversos nomes de personagens do MK são citados e somente Ryu, Ken e Chun-Li representam o lado do Street Fighter. O segundo verso de “Chun-Li dá Mini-tac / Na Kitana é legal” não faz nenhum sentido e “Mini-tac” é um nome popular pro golpe Spinning Bird Kick.

Carnaval 2013 - Abaixo de Zero (Sub-Zero)

É interessante apontar o uso dos nomes originais dos golpes Hadouken e Shoryuken, ou seja, eles empregaram do jeito que lhes convém para soar melhor na música. Além disso, “Fataly” foi comprimido de “Fatality” pra rimar com “Kombat” ou algo do tipo.

Observam-se também o Shoryuken do Ken e o “Fatality” bem peculiar do Sub-Zero.

Para finalizar, a dupla apresentou as duas danças no programa Astros do SBT caracterizados como nesse clipe. Eles foram aplaudidos pelo público e desdenhados pelos jurados. A melhor parte foi quando a dupla afirmou que o público alvo deles são crianças.

Assistam ao próximo videoclipe e tirem suas próprias conclusões.

Passinho do Mário Bros – Mantena e JP

Este é o hit de verão de 2012 (nada em 2013 ainda, infelizmente). As primeiras imagens do clipe são trechos de “Super Mario Xuxaine Sunshine” e “Luigi’s Mansion”.

Logo em seguida, surgem o Mario e Luigi do Village People, cujas alças dos macacões não param de cair. Os cenários se alternam entre o “interior de um castelo” com piso xadrez (piso presente em Super Mario Bros. 3 e Super Mario 64; esqueceram de esvaziar a prateleira da direita) e o já famoso fundo branco.

Quanto a letra, espera-se que o par “brother”/”bros” não seja uma tentativa frustrada de rima e o verso “Atrás da princesinha, o Mario se meteu” já está nos anais da música brasileira. Aliás, a princesa Peach do vídeo é a personificação perfeita da personagem.

Carnaval 2013 - By Miyamoto

O “jacaré” da letra certamente refere-se ao Bowser/Koopa (que é uma tartaruga), todavia o Sub-Zero (?) aparece em seu lugar no vídeo.

Há explicações razoáveis para isso: ou o Bowser está disfarçado de Sub-Zero ou o Bowser foi embora por falta de pagamento e contrataram o Sub-Zero às pressas para substituí-lo ou o Sub-Zero quer virar turbo. E o que a gíria “brotinho” faz nessa letra? Certamente está lá para atingir o público idoso, morô?

Pra fechar com chave de ouro, o refrão é um plágio da “Dança do Créu” do MC Créu e escreveram “Mario Bros.” errado no título da música.

Pelo menos “Passinho do Mário Bros” levou um prêmio: o troféu Donkey Kong pelo excelente reaproveitamento de fantasia em um videoclipe.

Super Mário – Banda IDR

Mario is Missing! e esta canção é tão divertida quanto o jogo citado. Nela, Luigi pede ajuda a vários amigos como Bob Esponja, Batman e Fred Flintstone (?).

Em suma, a letra da música é um amontoado de variados personagens de desenhos animados com pouca relação entre si e menos ainda com Mario e Luigi – só pra constar, há desenhos animados do Mario.

Carnaval 2013 - Mario WTF

Não faz sentido a canção se chamar “Super Mário” e não haver personagens do universo dos irmãos Mario (ou de video game) além deles próprios. Ademais, novamente o título da música tem um erro de grafia.

No fim das contas o Mario não foi encontrado (sabemos que ele está no encalço da princesa), coitado.

Geração Pokébola – bit.players

Antes de mais nada, a música é uma plágio paródia da “Geração Coca-Cola” da “Legião Urbana” e, felizmente, o fato do vocalista cantar o final de vários versos com tonalidades diferentes da original não é nem um pouco irritante.

A rima da vez é “três”/”SNES” que indubitavelmente é dêz dez. São vistos no vídeo diversos pokémons, tais como Biriridama, Purin, Meu Tio e Canis familiaris (senti falta do Sawamurao demolidor).

Ademais, aparecem algumas pokébolas, um boneco do Pikachu preso no violão, o Satoshi de barba e muitos videogames: Game Boy, Game Boy Advance, GBA SP, DS Lite, 3DS, GameCube, Wii, SNES amarronzado e vários jogos de Pokémon.

Destaque para as batalhas Pokémons com direito a pixel art e chiptune.

Este clipe não pode passar no SBT pois contém muitas bolas.

Pac Man Rock – MegaDriver

Mais uma música do Pac-Man com o nome do jogo grafado errado! Para compensar, milagrosamente não existe a bendita e raríssima metáfora sobre o personagem no videoclipe (vaias).

Logo de início surge uma agradável e familiar apresentação do logotipo da banda. Depois, dois marmanjos caracterizados como crianças trocam jogos de Atari 2600: “Pac Man” (da CCE, talvez isso seja a causa de parte das grafias erradas) e Enduro – não tem como não lembrar de Chaves.

A seguir, a lista dos consoles que aparecem no clipe: Atari 2600 (com o esplêndido Pac-Man), Dynavision Radical (clone não muito antigo do NES, com Duck Hunt e Operation Wolf), Mega Drive (com Road Rash), Nomad (Mega Drive portátil, com Golden Axe), PlayStation Portable 2000, Xbox 360 e PlayStation 3 (só na letra).

Há ainda uma animação de Pac-Man de arcade e outras de Atari 2600, imagens adicionais de Super Mario World, Sonic the Hedgehog, Sonic Adventure, Streets of Rage e Super Mario Bros. 3.

Além dos consoles e jogos antigos, há numerosas referências nostálgicas no videoclipe, tais quais a caixinha RF (usada nos video games antigos), vinis, toca-discos e a antiga máxima de que videogame estraga a TV (em um verso).

Carnaval 2013 - Operation Wolf 2 Players

É interessante atentar ao fato de Duck Hunt e Operation Wolf não suportarem duas light guns e Road Rash não ter um modo de dois jogadores simultâneos, diferente do que se vê no clipe (licenças poéticas em ação).

Ao final do clipe três músicos aparecem fantasiados de astros do rock (aparecem também as icônicas guitarras do Sonic e do Mega Drive) e vale lembrar que os roqueiros homenageados estão presentes em video games de alguma forma.

Por fim, destacam-se as atuações engraçadas dos músicos, em especial a interpretação da mãe.

Bem, amigos (e inimigos), espero que tenham se divertido com a minha lista e espero que nenhuma infância foi destruída.

Assim como Pitfall, desejo que pulem muito no carnaval deste ano!

OBS: ainda bem que não existe videogame do Crepúsculo... Fin.


Come-Come! (Odyssey)

Por Euler Vicente

Maior rival do Atari 2600 na primeira metade dos anos 80, o nosso Odyssey fez relativo sucesso no Brasil. Graças a uma excelente estratégia de marketing, que se apoiou na regionalização dos seus títulos e no teclado alfanumérico, que dava um aspecto mais educacional ao console, o Odyssey deu trabalho à concorrência — apesar de sua inferioridade técnica.

Com minhas 8 primaveras completadas, começava a  me sentir encantado por essas diversões eletrônicas: havia chegado o momento de ganhar meu primeiro console!

Escolha complicada na época: Atari ou Odyssey?

Devo confessar: fui uma das “vítimas” dos marketeiros da Phillips na época. Aproveitando o estrondoso sucesso do filme Os Trapalhões na Serra Pelada, tiveram a fantástica ideia de batizar o título “Pick Axe Pete” como “Didi na Mina Encantada”. Criaram uma nova capa bem simpática com o Didi, muita publicidade e pronto: tinham um system seller! Como qualquer criança brasileira da época, era absolutamente apaixonado pelos Trapalhões. Como resistir ao apelo de jogar um videogame com nosso maior herói, o Didi Mocó?

Além disso tudo, meu pai via com bons olhos o teclado que acompanhava o console. Lembrava uma máquina de datilografia! Talvez acreditasse que eu pudesse aprender a datilografar com o Odyssey (risos). Imagino que, talvez, alguns dos nossos amigos leitores possam nunca ter visto uma máquina de datilografar, mas nos anos 80 era a ferramenta de trabalho principal nos escritórios. Aprender datilografia para conseguir um emprego era tão importante como saber usar o MS-Office hoje em dia!

Surpresas no dia da compra!

A guerra dos consoles lá de casa teve um vencedor: O Odyssey! Aniversário, Natal… não lembro exatamente. Sei que, naquele dia, um fato inusitado ocorreu, que remete ao título revisitado: Ao comprarmos o console, meu pai permitiu a escolha de um cartucho extra. Logicamente… escolhi o jogo do Didi! Então, em tese, teria 4 jogos para me divertir: o do Didi e os 3 que já vinham no console (Criptologic, Interlagos e F1).

Antes de levar, o console foi testado na hora. O vendedor ligou numa TV que estava em exibição e trouxe um certo jogo que parecia usar para demonstrar o Odyssey na loja. O cartucho tinha aquele aspecto de produto de mostruário mesmo, estava sem o adesivo frontal. Em seu lugar tinha escrito a lápis: “Come-Come”.

Meu pai pediu para que eu jogasse um pouco, para confirmar se o console estava funcionando mesmo: tudo ok, o moço da loja embalou o Odyssey e levamos pra casa. Ao chegarmos, apressadamente fui abrindo a caixa. Para minha surpresa… o vendedor havia esquecido o cartucho do Come-Come dentro da caixa, ainda conectado ao console (risos)! Mais um jogo, de “presente”!

Eufórico, pedi ao meu pai para ligar o Odyssey. Mas, para minha surpresa (outra?), minha primeira jogatina durou menos de 10 minutos: o console pifou. Depois de várias tentativas naquele dia, constatamos que o console travava após alguns minutos ligado, provavelmente ao esquentar. Por azar, o defeito não aconteceu no momento do teste na loja. Tive que passar o fim de semana inteiro paquerando o Odyssey, morrendo de vontade de jogar — que castigo!

Meu pai ficou de levá-lo para trocar na semana seguinte. “Não fala nada do cartucho, viu?!” — falou pra mim (risos). Bem, a loja não aceitou a troca; fomos para a assistência técnica. Foram mais algumas semanas angustiantes de espera, mas o Odyssey retornou funcionado perfeitamente. Enfim, sós!

Mais um clone do Pac-Man?

Naquela época, o Pac-Man era o que havia de mais legal em diversões eletrônicas. A Atari logo lançou sua versão para o console caseiro e fez muito sucesso, ainda que tenha sido um port “polêmico”. A Magnavox percebeu que tinha que fazer alguma coisa e, desta forma, nasceu o K.C’s Krazy Chase (o nosso “Come-Come!”) para brigar com o Pac-Man.

No jogo, controlamos o Come-Come (“Munchkin” no original americano), um bichinho peludo azulado. O objetivo é comer todas as pílulas presas ao corpo de uma centopeia para passar de fase. Só que existem 2 fantasmas e a cabeça da própria centopeia que nos atacam. O Come-Come precisa abordar a centopeia por trás e, somente assim, conseguir comer as pílulas. Quando isso acontece, os fantasmas ficam brancos e podem ser devorados pelo Come-Come. Podemos também comer uma pílula que está numa posição intermediária da centopeia. Quando isso acontece, as demais pílulas se desprendem do corpo, sendo deixadas no labirinto. Portanto, o básico para um clone do Pac-Man está aqui: o labirinto, os fantasmas e as pílulas.

Porém, a grande sacada do Come-Come foi mesmo a centopeia. No Pac-Man, as pílulas que permitem que o Pac-Man fique invulnerável e devore os fantasmas ficam nas extremidades do labirinto, em locais fixos. Para os jogadores mais habilidosos, é possível criar estratégias para se jogar indefinidamente o Pac-Man do Atari — lembro bem que o Eric conseguia fazer isso. Também sempre tive a impressão que o Pac-Man entrava em looping quanto a progressão da dificuldade. Parecia que, ao chegarmos a um determinado ponto, a dificuldade regredia para depois voltar a aumentar. Não tenho certeza se isso procede, mas sempre tive essa sensação, tal qual acontecia com Frogger do Odyssey.

No Come-Come, com as pílulas nas costas da centopeia se movimentando velozmente pelo labirinto, adicionava um fator de aleatoriedade ao gameplay que simplesmente não existia no Pac-Man. Outro ponto positivo é a dificuldade acentuada. A progressão ocorre de tal forma que, já a partir da 4ª-5ª fase, o jogo torna-se bem rápido e difícil. A partir daí, o jogador deve permanecer na defensiva fugindo dos fantasmas e da centopeia, até surgir uma oportunidade de comer as pílulas. A combinação: randomicidade, velocidade e dificuldade, na minha humilde opinião, tornam Come-Come um jogo superior ao Pac-Man!

Pac-Man é infinitamente mais popular que o Come-Come, inclusive tornando ícone da cultura pop, como todos sabemos. Mas o Come-Come é um jogo superior. Vou ser apedrejado pela comunidade retrogamer por dizer isso (risos)!

Foi uma situação muito parecida com a que ocorreu alguns anos depois com o Final Fight e Streets of Rage. SoR nasceu como um clone do FF, mas penso que o jogo da SEGA superou o original.

O dia do campeonato

Nós, gamers, adoramos testar nossas habilidades. E um campeonato é perfeito para isso. Então, juntamente com meus coleguinhas, decidimos organizar uma contenda de Come-Come lá em casa. Coisa que se fazia nos tempos offline dos videogames, com razoável frequência.

Na época (1984), acho que nem conhecia o Eric, ou não eramos muito próximos, pois ele não participou da peleja. Eu era amigo de um outro garoto chamado Márcio Levy, por sinal vizinho do Eric. Apesar de ter outros jogadores, sabia que ele era meu único rival, pois também tinha Odyssey também e era ótimo jogador. Meu pai até comprou medalhas, especialmente para este dia!

Treinei bastante antes do campeonato. Mas Come-Come é um jogo extremamente imprevisível… como pude constatar naquele fatídico dia de 1984.

Puxando pela memória, lembro que meu pai organizou o campeonato da seguinte maneira: jogávamos várias partidas e, no final, calculava a média de pontos obtida por cada participante. Eu não joguei bem naquele dia, não consegui repetir o desempenho dos treinos — meu rival e amigo Márcio Levy jogou muito bem e ganhou a medalha de ouro e eu terminei com a prata :-(

Mas, a lembrança mais forte que ficou daquele dia foi minha reação ao perder o campeonato: me acabei de chorar (risos)! Aos 9 anos de idade acho que era um péssimo perdedor. Lembro de ter me trancado no quarto, emburrado — não queria falar com ninguém (mais risos). Márcio Levy lembra disso até hoje e não perde a chance de me alfinetar. O cara já está com seus 40 anos de idade, casado e com filhos, mas não esquece daquele dia (risos)!

Anos depois, meus pais se divorciaram e meu pai foi morar em São Paulo. Em 2001, no dia do meu aniversário, ele fez uma visita e trouxe de presente uma caixinha preta:

– Euler, estava lembrando daquele campeonato de videogame…

Curioso, abro a caixinha e…

Aquele campeonato de videogame tinha me feito chorar pela segunda vez…

SCORE

GAMEPLAY: O que o Pac-Man gostaria de ter sido e nunca foi… 5/5
GRÁFICOS: O jogo era bem colorido e a animação do Come-Come era bem simpática. Não lembro de gráficos melhores no Odyssey 5/5
SOM: Dita o ritmo da partida, ajuda a aumentar a adrenalina… apesar de ser chato. Dizem que o Come-Come funcionava com um adaptador que permitia vozes digitalizadas no Odyssey, mas nunca vi 3/5
TRILHA SONORA: N/A
DIFICULDADE: A aleatoriedade e a velocidade crescente dos inimigos à medida em que passamos de fase tornam o jogo realmente difícil 5/5

DADOS

NOME: Come-Come! (K.C.’s Krazy Chase! nos EUA)
PLATAFORMA: Odyssey (Odyssey² nos EUA)
DESENVOLVEDORA: Magnavox
ANO: 1982

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