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Cosmic Cast 52 – O Criador Dos Videogames

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Retrowave [001] – F-Zero, Senhor Das Trevas, SpellCaster

Retrowave: Embarque conosco na busca pelo último pixel do retrogaming numa trilogia de jogos a cada episódio.

F-Zero do Super NES, Senhor das Trevas do Odyssey e SpellCaster do Master System. O que estes três jogos têm em comum? Nada?

Pois é… esta é a ideia.

Amigos, o Cosmic Effect Team orgulhosamente apresenta mais uma série em vídeo para curtirmos em co-op!

Capturas reais. Retrogaming real. Retrowave: Não configure o seu emulador.

Retrowave [001]

* * *

Come-Come! (Odyssey)

Por Euler Vicente

Maior rival do Atari 2600 na primeira metade dos anos 80, o nosso Odyssey fez relativo sucesso no Brasil. Graças a uma excelente estratégia de marketing, que se apoiou na regionalização dos seus títulos e no teclado alfanumérico, que dava um aspecto mais educacional ao console, o Odyssey deu trabalho à concorrência — apesar de sua inferioridade técnica.

Com minhas 8 primaveras completadas, começava a  me sentir encantado por essas diversões eletrônicas: havia chegado o momento de ganhar meu primeiro console!

Escolha complicada na época: Atari ou Odyssey?

Devo confessar: fui uma das “vítimas” dos marketeiros da Phillips na época. Aproveitando o estrondoso sucesso do filme Os Trapalhões na Serra Pelada, tiveram a fantástica ideia de batizar o título “Pick Axe Pete” como “Didi na Mina Encantada”. Criaram uma nova capa bem simpática com o Didi, muita publicidade e pronto: tinham um system seller! Como qualquer criança brasileira da época, era absolutamente apaixonado pelos Trapalhões. Como resistir ao apelo de jogar um videogame com nosso maior herói, o Didi Mocó?

Além disso tudo, meu pai via com bons olhos o teclado que acompanhava o console. Lembrava uma máquina de datilografia! Talvez acreditasse que eu pudesse aprender a datilografar com o Odyssey (risos). Imagino que, talvez, alguns dos nossos amigos leitores possam nunca ter visto uma máquina de datilografar, mas nos anos 80 era a ferramenta de trabalho principal nos escritórios. Aprender datilografia para conseguir um emprego era tão importante como saber usar o MS-Office hoje em dia!

Surpresas no dia da compra!

A guerra dos consoles lá de casa teve um vencedor: O Odyssey! Aniversário, Natal… não lembro exatamente. Sei que, naquele dia, um fato inusitado ocorreu, que remete ao título revisitado: Ao comprarmos o console, meu pai permitiu a escolha de um cartucho extra. Logicamente… escolhi o jogo do Didi! Então, em tese, teria 4 jogos para me divertir: o do Didi e os 3 que já vinham no console (Criptologic, Interlagos e F1).

Antes de levar, o console foi testado na hora. O vendedor ligou numa TV que estava em exibição e trouxe um certo jogo que parecia usar para demonstrar o Odyssey na loja. O cartucho tinha aquele aspecto de produto de mostruário mesmo, estava sem o adesivo frontal. Em seu lugar tinha escrito a lápis: “Come-Come”.

Meu pai pediu para que eu jogasse um pouco, para confirmar se o console estava funcionando mesmo: tudo ok, o moço da loja embalou o Odyssey e levamos pra casa. Ao chegarmos, apressadamente fui abrindo a caixa. Para minha surpresa… o vendedor havia esquecido o cartucho do Come-Come dentro da caixa, ainda conectado ao console (risos)! Mais um jogo, de “presente”!

Eufórico, pedi ao meu pai para ligar o Odyssey. Mas, para minha surpresa (outra?), minha primeira jogatina durou menos de 10 minutos: o console pifou. Depois de várias tentativas naquele dia, constatamos que o console travava após alguns minutos ligado, provavelmente ao esquentar. Por azar, o defeito não aconteceu no momento do teste na loja. Tive que passar o fim de semana inteiro paquerando o Odyssey, morrendo de vontade de jogar — que castigo!

Meu pai ficou de levá-lo para trocar na semana seguinte. “Não fala nada do cartucho, viu?!” — falou pra mim (risos). Bem, a loja não aceitou a troca; fomos para a assistência técnica. Foram mais algumas semanas angustiantes de espera, mas o Odyssey retornou funcionado perfeitamente. Enfim, sós!

Mais um clone do Pac-Man?

Naquela época, o Pac-Man era o que havia de mais legal em diversões eletrônicas. A Atari logo lançou sua versão para o console caseiro e fez muito sucesso, ainda que tenha sido um port “polêmico”. A Magnavox percebeu que tinha que fazer alguma coisa e, desta forma, nasceu o K.C’s Krazy Chase (o nosso “Come-Come!”) para brigar com o Pac-Man.

No jogo, controlamos o Come-Come (“Munchkin” no original americano), um bichinho peludo azulado. O objetivo é comer todas as pílulas presas ao corpo de uma centopeia para passar de fase. Só que existem 2 fantasmas e a cabeça da própria centopeia que nos atacam. O Come-Come precisa abordar a centopeia por trás e, somente assim, conseguir comer as pílulas. Quando isso acontece, os fantasmas ficam brancos e podem ser devorados pelo Come-Come. Podemos também comer uma pílula que está numa posição intermediária da centopeia. Quando isso acontece, as demais pílulas se desprendem do corpo, sendo deixadas no labirinto. Portanto, o básico para um clone do Pac-Man está aqui: o labirinto, os fantasmas e as pílulas.

Porém, a grande sacada do Come-Come foi mesmo a centopeia. No Pac-Man, as pílulas que permitem que o Pac-Man fique invulnerável e devore os fantasmas ficam nas extremidades do labirinto, em locais fixos. Para os jogadores mais habilidosos, é possível criar estratégias para se jogar indefinidamente o Pac-Man do Atari — lembro bem que o Eric conseguia fazer isso. Também sempre tive a impressão que o Pac-Man entrava em looping quanto a progressão da dificuldade. Parecia que, ao chegarmos a um determinado ponto, a dificuldade regredia para depois voltar a aumentar. Não tenho certeza se isso procede, mas sempre tive essa sensação, tal qual acontecia com Frogger do Odyssey.

No Come-Come, com as pílulas nas costas da centopeia se movimentando velozmente pelo labirinto, adicionava um fator de aleatoriedade ao gameplay que simplesmente não existia no Pac-Man. Outro ponto positivo é a dificuldade acentuada. A progressão ocorre de tal forma que, já a partir da 4ª-5ª fase, o jogo torna-se bem rápido e difícil. A partir daí, o jogador deve permanecer na defensiva fugindo dos fantasmas e da centopeia, até surgir uma oportunidade de comer as pílulas. A combinação: randomicidade, velocidade e dificuldade, na minha humilde opinião, tornam Come-Come um jogo superior ao Pac-Man!

Pac-Man é infinitamente mais popular que o Come-Come, inclusive tornando ícone da cultura pop, como todos sabemos. Mas o Come-Come é um jogo superior. Vou ser apedrejado pela comunidade retrogamer por dizer isso (risos)!

Foi uma situação muito parecida com a que ocorreu alguns anos depois com o Final Fight e Streets of Rage. SoR nasceu como um clone do FF, mas penso que o jogo da SEGA superou o original.

O dia do campeonato

Nós, gamers, adoramos testar nossas habilidades. E um campeonato é perfeito para isso. Então, juntamente com meus coleguinhas, decidimos organizar uma contenda de Come-Come lá em casa. Coisa que se fazia nos tempos offline dos videogames, com razoável frequência.

Na época (1984), acho que nem conhecia o Eric, ou não eramos muito próximos, pois ele não participou da peleja. Eu era amigo de um outro garoto chamado Márcio Levy, por sinal vizinho do Eric. Apesar de ter outros jogadores, sabia que ele era meu único rival, pois também tinha Odyssey também e era ótimo jogador. Meu pai até comprou medalhas, especialmente para este dia!

Treinei bastante antes do campeonato. Mas Come-Come é um jogo extremamente imprevisível… como pude constatar naquele fatídico dia de 1984.

Puxando pela memória, lembro que meu pai organizou o campeonato da seguinte maneira: jogávamos várias partidas e, no final, calculava a média de pontos obtida por cada participante. Eu não joguei bem naquele dia, não consegui repetir o desempenho dos treinos — meu rival e amigo Márcio Levy jogou muito bem e ganhou a medalha de ouro e eu terminei com a prata :-(

Mas, a lembrança mais forte que ficou daquele dia foi minha reação ao perder o campeonato: me acabei de chorar (risos)! Aos 9 anos de idade acho que era um péssimo perdedor. Lembro de ter me trancado no quarto, emburrado — não queria falar com ninguém (mais risos). Márcio Levy lembra disso até hoje e não perde a chance de me alfinetar. O cara já está com seus 40 anos de idade, casado e com filhos, mas não esquece daquele dia (risos)!

Anos depois, meus pais se divorciaram e meu pai foi morar em São Paulo. Em 2001, no dia do meu aniversário, ele fez uma visita e trouxe de presente uma caixinha preta:

– Euler, estava lembrando daquele campeonato de videogame…

Curioso, abro a caixinha e…

Aquele campeonato de videogame tinha me feito chorar pela segunda vez…

SCORE

GAMEPLAY: O que o Pac-Man gostaria de ter sido e nunca foi… 5/5
GRÁFICOS: O jogo era bem colorido e a animação do Come-Come era bem simpática. Não lembro de gráficos melhores no Odyssey 5/5
SOM: Dita o ritmo da partida, ajuda a aumentar a adrenalina… apesar de ser chato. Dizem que o Come-Come funcionava com um adaptador que permitia vozes digitalizadas no Odyssey, mas nunca vi 3/5
TRILHA SONORA: N/A
DIFICULDADE: A aleatoriedade e a velocidade crescente dos inimigos à medida em que passamos de fase tornam o jogo realmente difícil 5/5

DADOS

NOME: Come-Come! (K.C.’s Krazy Chase! nos EUA)
PLATAFORMA: Odyssey (Odyssey² nos EUA)
DESENVOLVEDORA: Magnavox
ANO: 1982

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