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To The Moon (PC)

Este artigo faz parte da série “Indie no Cosmic Effect”

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Embarque numa jornada comovente pelas memórias de um homem

A premissa

Se você tivesse, no seu leito de morte, a chance de mudar suas memórias de forma a acreditar que teve uma vida diferente, você o faria? Baseado nessa premissa instigante o game indie To the Moon conduz o jogador a uma jornada pelas lembranças de um homem. Trata-se de um trabalho de praticamente uma pessoa: o canadense Kan Gao da Freebird Games.

Johnny Wiles é um senhor de idade que vive suas últimas horas, em estado de coma. Quando ainda gozava de melhor saúde Johnny contratou os serviços da Sigmund Corp., uma empresa que promete modificar memórias permanentemente de forma que o paciente acredite que levou uma vida diferente, sem arrependimentos. Devido ao alcance das mudanças a técnica só deve ser utilizada naqueles que estão prestes a morrer.

É aí que entram a Dra. Eva Rosalene e o Dr. Neil Watts. Empregados da Sigmund Corp., esses dois cientistas são os personagens jogáveis de To the Moon e logo no início do jogo eles chegam à casa de Johnny — localizada em um belo penhasco, com um farol de navegação marítima à frente – para realizar os procedimentos de reconstrução de memória.

A bela vista da casa de Johnny

Uma viagem rumo ao passado

Falar sobre To the Moon exige um cuidado especial, pois por se tratar de um jogo fortemente baseado em sua história é fácil ir longe demais e estragar a experiência. Serei cuidadoso para mencionar apenas o necessário para estabelecer o início do fio condutor da narrativa.

Antes de começar a operação é preciso obter mais informações sobre o cliente, e é nesse momento que somos levados a explorar um pouco a história e a casa de Johnny. A sua cuidadora — que tem dois filhos e mora com o ancião — nos conta que a esposa dele, chamada River, morreu há dois anos e também nos sugere que peçamos às crianças que nos mostrem a casa.

Os pequenos aceitam (não sem algum convencimento) e mencionam que há coisas estranhas no porão da residência. Inspecionando o local nos deparamos com uma grande quantidade de origamis de coelho, além de um ornitorrinco de pelúcia.

Ornitorrinco de pelúcia e origamis de coelho: que mistério eles encerram?

As crianças mencionam que no farol também há coisas estranhas. Chegando lá, mais origamis de coelho, sendo que um deles parece ser especial, pois possui duas cores: azul e amarelo. Nesse momento recebemos uma ligação telefônica do parceiro que ficou junto a Johnny, visando começar a operação.

Pois bem. Para fazer a reconstrução da memória há todo um procedimento: Eva e Neil utilizam capacetes interligados a um aparelho. Johnny, deitado na sua cama e inconsciente, também é conectado à máquina da mesma forma. Ligando o aparato os cientistas são levados à última memória acessível de Johnny, onde eles podem, invisíveis, assistir aos eventos, ou visíveis, interagir de forma seletiva com objetos ou pessoas.

Johnny em seu leito de morte. Eva e Neil se preparam para a missão

Nesse momento eles conversam com Johnny e descobrem como ele quer reescrever sua memória: seu desejo é ir até a Lua. O mais estranho é que Johnny não sabe porque quer fazer isso, mas tem certeza de suas intenções.

Para reescrever a memória de forma convincente é necessário que a vontade do cliente seja inserida quando ele ainda é bem jovem, ou seja, Eva e Neil devem saltar até as memórias de infância de Johnny e incutir nele o desejo de ser um astronauta, de forma que ele se prepare e faça o que é necessário ao longo da vida para ser selecionado pela NASA e, enfim, embarcar numa missão rumo ao nosso satélite natural.

Entretanto o salto não pode ser direto; é importante que eles passem gradativamente pelas fases da vida de Johnny, da velhice à infância. Em cada etapa eles precisam encontrar cinco mementos (objetos que representem lembranças) que façam uma ligação entre a fase atual e anterior. Também é necessário resolver um puzzle simples, virando ladrilhos de um mosaico que representa o objeto. Quando essas condições são satisfeitas, o salto rumo a fase anterior pode ser realizado.

Pouco jogo, muita história

Encontrar os mementos e resolver os puzzles são tarefas fáceis; não se qualificam como desafios típicos de um jogo. Nesse instante fica evidente o que provavelmente é o ponto fraco de To the Moon: se o jogador espera uma jogabilidade rica, certamente vai se frustrar. Trata-se praticamente de uma ficção interativa.

Por outro lado, se há interesse em uma história comovente e muito bem contada, então a satisfação é garantida. À medida que Eva e Neil vão avançando passo a passo rumo à infância de Johnny somos presenteados com uma narrativa que aborda com profundidade os relacionamentos humanos, o casamento, as memórias e o impacto que um evento pode ter ao longo de toda a vida.

Eva e Neil também se destacam, ficando evidente a longa parceria dos dois. Ela profissional mas respeitosa. Ele irônico e muitas vezes o alívio cômico da cena. É interessante notar os variados graus de envolvimento dos cientistas com a história de Johnny à medida que eles avançam na jornada.

Eva e Neil no início da missão, acompanhando uma memória mais recente de Johnny

Contar histórias de trás para a frente exige uma boa dose de habilidade. No caso desse game os mistérios vão sendo descortinados (ou não) de uma forma que valoriza a inteligência do jogador. Os diálogos são muito bem construídos e confesso que em alguns momentos não pude deixar de admirar que acompanhava algumas das cenas mais memoráveis que já vi nos games. Os personagens têm um desenvolvimento sólido e é muito improvável que ao fim do jogo o jogador não se importe com eles.

Na sua premiação Game of the Year, o site GameSpot elegeu To the Moon como o vencedor da categoria “Melhor História”. Ainda falando de roteiro, também foi indicado aos prêmios de “Momento Mais Memorável”, “Melhor Redação/Diálogos” e “Melhor Final”.

Uma apresentação retrô

Algo que chama a atenção ao nos depararmos com To the Moon são os seus gráficos. Trata-se de um jogo criado no RPG Maker XP, uma plataforma que visa facilitar o desenvolvimento de games no estilo típico 16-bit. Não à toa, a impressão é que estamos jogando um título da SquareSoft no SNES.

Trata-se de pixel art de qualidade, que consegue representar com beleza os diferentes cenários do jogo, inclusive os orgânicos. Há pequenos deslizes aqui e ali, uns poucos elementos com qualidade um pouco destoante do resto da cena, mas felizmente tais ocorrências são raras.

Música tocante

A trilha sonora de To the Moon atua decisivamente para realizar todo o potencial emocional do jogo. São composições de grande beleza, muitas delas executadas ao piano, que evocam os sentimentos de cada momento da vida de Johnny.

Vale a pena mencionar que o próprio Johnny toca piano e compõe um dos temas mais memoráveis: “For River”. Essa peça esteve entre as indicadas pelo site GameSpot como “Melhor Música” de  2011. Aliás, To the Moon também foi indicado ao prêmio de “Melhor Trilha Sonora”.

Johnny ao piano

As músicas inclusive podem ser adquiridas à parte e metade do lucro é direcionada a instituições de caridade.

Um avanço notável

Terminei To the Moon após pouco mais de quatro horas. De fato não se trata de um jogo longo, mas a experiência mais duradoura vem realmente depois de acabar a partida. Impossível não refletir bastante sobre a vida de Johnny e tudo o que gira em torno dela.

Sei que possivelmente não é um jogo que agrade à maioria, ainda assim, To the Moon foi o jogo mais bem avaliado pelos usuários do site Metacritic em 2011.

Sem dúvida ele representa um avanço no que diz respeito a que tipo de histórias um jogo pode contar, além da profundidade com que essas histórias são contadas. É uma pena que esse avanço não tenha sido acompanhado de uma jogabilidade à altura, mas de toda forma é importante que esses limites da mídia sejam explorados. Nada impede que alguém se inspire e produza uma obra com esse nível de storytelling e também um gameplay interessante. Fica a torcida.

Por que ir até a Lua?

To the Moon e sua trilha sonora estão disponíveis no Steam. Eu só evitaria ver todos os screenshots que a página disponibiliza; sou meio chato com spoilers e acho que eles mostram um pouco demais. Há também uma versão de demonstração que funciona por uma hora, disponível no site oficial.


Todos os jogos da série “Indie no Cosmic Effect” (até este artigo)

Jamestown: Legend Of The Lost Colony (PC) por Heider Carlos
Outland (X360) por Danilo Viana
VVVVVV (PC) por Émerson Watanabe
Insanely Twisted Shadow Planet (X360) por Danilo Viana
The Binding Of Isaac (PC) por Heider Carlos
Terraria (PC) por Heider Carlos
Torchlight II (PC) por Danilo Viana
To The Moon (PC) por Alan Freitas

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9 Respostas

  1. Já faz muito anos que não jogo nada no PC, talvez por causa da configuração do “guerreiro” ou talvez pela preguiça de ter de sair da sala onde reina o PS3, mas esse seu post me fez “reativar” a conta do Steam.

    Parabens!!!

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  2. Oi Alan,

    Parabéns pela resenha. Achei o jogo muito curioso e fiquei com vontade de experimentar. Eu achava que ele era um RPG um pouco mais denso, mas agora que você falou que é uma história interativa, vou aproveitar o jogo com isso em mente.

    Um abraço!

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  3. consegui o jogo e simplesmente tocante, joguei o comecinho dele e parece irressistivel to revezando entre ele e o Mega Man x Street Fighter mas esse to vendo que vou jogar mais um pouco na frente.
    valeu pela recente surpresa amigo e obrigado.
    Sem contar a trilha sonora que é espetacular.

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  4. Ótimo jogo, uma grande narrativa, um roteiro muito bem construído! O jeito que os mementos são usados me fazem lembrar daquele CD “Nine Lives” do Aerosmith, onde a capa do CD e o encarte contém imagens que são contidas umas dentro das outras:

    Sua trama é muito madura, quem julgar este aspecto do jogo somente pelo visual “SD”, verá que “julgou o livro pela capa”.

    Joguei do início ao fim e gostei de mais. Sei que muitos não podem gostar pela “ausência” ou simplicidade excessiva da jogabilidade. Mas quanto a sua narrativa, não há como negar: ela é sensacional!

    Parabéns pelo review, Alan!

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    • Obrigado a todos pelo incentivo!

      @Doidao66 – Pois é, uma característica bacana do PC como plataforma de jogos é justamente a maior facilidade de um desenvolvedor independente trazer uma pérola como To the Moon para o público. Sei que os consoles também já consolidaram uma tendência nesse sentido na geração atual, lançando excelentes jogos indies, mas acho que o PC ainda tem um custo menor para o desenvolvedor e menos amarras.

      @Marcelo Martins – Legal que chamou sua atenção. Realmente a aparência do jogo pode ser enganosa e, sem falar muito para não fazer spoiler, ele inclusive faz uma brincadeira com essa semelhança com os JRPGs bem no começo. :-) Se você se interessou pelo game eu sugiro que faça o download da versão demo e jogue uma partida quando tiver uma hora livre. Acho que é bem suficiente para você formar um juízo se deve ou não pegar o jogo completo.

      @Ulisses Seventy Eight – Legal que está gostando. Realmente a trilha sonora é de muita qualidade. Um relato a respeito: enquanto eu jogava minha esposa estava por perto, mas sem ver a tela. Em determinado momento ela comentou a respeito das músicas, que chamaram a atenção pela beleza e certa melancolia. Caso queira, os arquivos de música são acessíveis diretamente dentro da estrutura de diretórios do jogo, no formato Ogg Vorbis.

      @FrankCastle – Você usou um termo muito apropriado para falar sobre a trama: “madura”. A essa altura já tivemos a oportunidade de apreciar jogos com enredos muito bons. Vários deles sérios, com uma escala realmente épica. Agora, eu não me lembro de ter jogado um game no qual o enredo mergulha tão madura e profundamente na vida dos personagens, abordando os aspectos mencionados no review. Durante o jogo fiquei realmente envolvido com toda a narrativa.

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  5. Caramba, belo post. Na medida certa, aumentou a curiosidade de quem leu sem dar qualquer tipo de spoiler. A descrição inicial do jogo me fez lembrar daquele filme Vanilla Sky, que é a versão hollywoodiana de Abre los ojos, sobre inserção de memórias artificiais. Gostei bastante do que li, vou procurar jogar e curti essa história. Valeu.

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  6. Muito boa a resenha Alan, foi muito bem escrita!! To The Moon parece pegar idéias de alguns filmes como O Vingador do Futuro, Amnésia e A Origem ( curiosamente os dois últimos dirigidos por Christopher Nolan), o prórpio jogo mesmo acho que daria um excelente filme! Esse terei que jogar com certeza, jogos com a historia tao profunda assim e tocante nao surgem com muita frequencia no mundo dos games.

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